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sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

EmContando – 67 - A BOA NOVA

Artur da Távola

Evangelho quer dizer boa nova. Natal quer dizer advento, chegada, direito à vida. Peço pausa. Um dia. Uma antevéspera, hoje, do advento. Mais uma crônica de Natal. Permitam-me.

Milhares de profissionais diariamente lutam por levar ao próximo as “novas”, boas e más, do que o homem vai gestando na trilha do tempo. São os profissionais da comunicação. A palavra vem do latim “communis”. Quer dizer comum. O Evangelho trouxe a boa nova da mensagem de um Ser que veio ao mundo comunicar-se com os demais, isto é, tornar-se comum, entrar em “comunidade” com eles, parar isso sugerindo a única e eterna forma de fazê-lo: amar.

Não há outra. Jamais se comunicará o profissional que não amar o próximo e a eles prodigalizar o que de melhor tenha e possa. Jamais se comunicará o profissional incapaz de estabelecer uma “comunidade” com o público.

Cristianismo e comunicação são, pois, temas eminentemente relacionados. O comunicador é o evangelizador da era eletrônica. Ele carrega a “boa nova” usando a tecnologia de que dispõe. Ela está na arte, na notícia, na emoção, na representação, na música, na imagem, na letra de forma.

O Evangelho do comunicador ou tem por finalidade o amor ao próximo com todas as suas mil faces, ou jamais se realizará, por não conseguir entrar em estado de “comunidade” com o receptor. Estabelecer “comunidade” é ser igual ao próximo em suas aspirações e sentimentos. É vivê-lo profundamente. É tê-lo dentro de si.

Que outra lição fundamental deixou a vida do Cristo senão a da profunda capacidade de viver o próximo como a si mesmo? Que outra é a capacidade de comunicar-se senão a realização integral dessa lição do Cristo?

Carregar o próximo dentro de si é entrar em comunhão com ele. Comunhão tem a mesma raiz linguística de comunicação. Representa a integração com o Ser através de sua entrada em nós. 
Comunica quem entra em comunhão. Entra em comunhão quem ama. Ama quem comunica e vive a lição do Cristo. Evangeliza quem leva a boa nova aos povos. A boa nova é o amor.

Às margens do Tiberíades, Cristo e seus discípulos entravam em comunhão através da linguagem oral. Depois os evangelistas codificaram, para os séculos, as mensagens dessa comunhão (comunicação).

Hoje a comunicação dos povos se dá através da multiplicação de circuitos eletrônicos que cobrem o mundo numa vasta rede de comunicação. As mensagens chegam a milhões. É a eletrônica, a informática, a cibernética. Um de seus pais, Norbert Wienert disse: “Modificamos tão radicalmente nosso meio ambiente que devemos agora modificar-nos a nós mesmos para poder viver nesse novo meio ambiente”.

Que maior modificação podemos impor-nos, senão  a de amar ao próximo para com ele entrar em comunhão diária? Que é amar ao próximo senão a ele dedicar o melhor do que temos e somos, o que só é possível através da conscientização de nossa pequenez e miserabilidade? Reflexão profunda e revolucionária como esta é a que foi comunicada aos homens pelo Ser cujo advento à Terra comemoramos com o Natal.

Crônicas – mevitevendo  SALAMANDRA Consultoria Editorial Ltda. Rio de Janeiro RJ 1977
Queridas e queridos leitores de EmContando,

Embora já tenhamos comemorado até a chegada o Novo Ano, ao encontrar essa crônica de Artur da Távola veio-me o desejo irresistível de compartilhá-la. Voltei até o Natal, até o Presépio, e pensei na atualidade das palavras do cronista. Li-as três vezes. Gostei tanto que não pude deixar de comunicá-las a vocês. Podemos levá-las conosco por todo 2014.

Tenham todos um Ano abençoado com muita alegria e paz. Abraços. Agnes G. Milley

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

EmContando – 66 - Milagre de Natal

Em agosto de 1914 teve início uma das mais sangrentas guerras mundiais. De ambos os lados combatia-se sem piedade, e a  morte e a destruição assolavam o mundo. Os inimigos disputavam o terreno, palmo a palmo, entre cenas indescritíveis onde o sacrifício e o heroísmo estavam lado a lado com a morte.

A terra de ninguém, esse espaço que separava as trincheiras, era atravessada apenas pela metralhadora. E quando esta já falara o suficiente, irrompiam os homens para completar o quadro de destruição. A ordem era avançar e morrer pelo dever ...

E assim, ingleses e alemães, separados por essa estreita faixa de terra de ninguém, atiravam noite e dia, até que a baioneta lhes permitisse desalojar o inimigo. Hoje, eram uns que conquistavam esse pedacinho de terra, amanhã, os outros. A fatigante ação da guerra repetia-se monótona, incessante.

Dezembro chegou, e encontrou os soldados na mesma luta dilacerante. A neve cobria os campos com seu manto gelado, trazendo aos corações de todos recordações de outros dias felizes. A família, os pais, os filhos ... que fariam àquelas horas, tão perto do Natal? Eles já estavam recebendo pacotes que muitos não abriam, esperando pelo santo dia ...

O dia 25 de dezembro de 1914 amanheceu em meio a um silêncio impressionante. A neve reinante não conseguia ocultar o movimento dos homens em seus esconderijos. De repente, algumas sombras saindo das trincheiras alemãs avançaram cautelosamente.
Os ingleses puseram-se de prontidão, mas não dispararam suas armas. Alguma coisa estranha pairava  sobre a terra de ninguém. Alguma coisa inexplicável, mas que todos podiam sentir. Momentos depois, também deste lado surgiram figuras  silenciosas que iam ao encontro das que se aproximavam; mais alguns instantes e aqueles vultos confundiam-se, silenciosamente, num estreito abraço.

Os outros não se contiveram mais e, como que inspirados por um mesmo sentimento, os homens de ambos os lados, sem poder entender-se, pois falavam duas línguas diferentes, uniram seus corações na linguagem universal do amor fraterno em comemoração a um dos mais empolgantes mistérios: o Nascimento do Menino Jesus.

Foi um verdadeiro milagre de Natal! E ali, naqueles campos um  pouco antes povoados pelo ódio e morte, ingleses e alemães abriram os pacotes que há tanto vinham guardando e dividiram os presentes entre si ...

Diversões Escolares  Ano 1  Número 5  1960  Editora Abril Didática Ltda. SP



Agnes G. Milley

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

EmContando – 64 - Babushka – uma história de Natal

Na noite em que o Menino Jesus nasceu em Belém, num país muito distante, uma mulher muito velha, de nome Babushka, estava sentada em seu casebre, perto do fogo que a aquecia. O vento lá fora carregava a neve e gemia na chaminé, mas fazia só o fogo de Babushka arder com mais brilho.
“Ah, como fico contente só de poder estar dentro de casa”, dizia Babushka, abrindo as mãos sobre o calor das chamas.

De repente, ela ouviu uma batida forte na porta. Foi abrir e  apareceram três homens de idade, parados na neve, com as barbas brancas feito a própria neve a lhes caírem até o chão, de tão compridos; os olhos deles rebrilhavam gentilmente à luz da  vela de Babushka e eles levavam nos braços uma porção de coisas preciosas: caixas de joias, óleos perfumados e  unguentos ...

“Nós estamos vindo de muito longe, Babushka, e paramos para dizer a você que o Menino nasceu em Belém. Ele vem para reinar sobre o mundo, e para ensinar todas as pessoas a serem amáveis e verdadeiras. Estamos levando presentes para Ele. Vem conosco, Babushka?”

Mas Babushka olhava para a neve caindo e olhava dentro da casa, para o quarto aconchegante e o fogo estalando.

“É muito tarde para eu ir, meus senhores. O tempo está frio, frio demais”, falou ela. E tornou a entrar e fechou a porta. E os três homens velhos rumaram para Belém, sem ela. Já ao sentar-se de novo na cadeira de balanço, perto do fogo, Babushka começou a pensar no Menino Jesus, pois  ela gostava muito de todas as crianças.

 “Amanhã eu vou lá procurar por Ele; amanhã quando o dia  estiver claro, eu vou levar para Ele alguns brinquedos ...”

Assim, quando o dia clareou, Babushka vestiu seu casacão comprido, apanhou seu cajado e encheu um cesto com uma porção dessas coisas bonitas que os bebês gostam: bolas douradas, brinquedos de madeira, fios e teias de prata. E lá foi ela à procura do Menino Jesus.

Mas Babushka esqueceu-se de perguntar o caminho aos três anciãos, e eles já deviam ter andado tanto durante a noite que ela não os poderia alcançar. Ela ia de um lado para o outro e a todas as pessoas que encontrava repetia a pergunta:

“Estou à procura do Menino Jesus. Onde é que Ele está? Eu trouxe para Ele uns brinquedos tão bonitos!”

Mas ninguém sabia dizer a ela o caminho por onde deveria ir, e todos lhe diziam:

“É para lá, Babushka. É bem para lá!”

E assim lá se foi ela, cada vez mais “para lá”, anos e anos, sem jamais encontrar o Menino Jesus. Dizem que Babushka ainda está viajando por aí, à procura  Dele. Quando começa a noite de Natal, e as crianças já estão caindo de sono, Babushka anda pisando bem de leve pelos campos gelados e pelas cidades ermas, embrulhada em seu capotão comprido, com a cesta dela nos braços. Com o cajado, ela vai batendo nas portas, entra e levanta o lampião para ver bem os rostos dos meninos:

“Será que Ele está aqui?”, pergunta. “Estará por aqui o Menino Jesus?”

E então ela mesma retoma o caminho, toda tristonha, repetindo:

“É mais para lá! Bem mais para lá!

Mas antes de seguir viagem, ela retira do cesto um brinquedo e o deixa ali, perto do travesseiro, como presente de Natal.

“É em nome d’Ele”, diz ela, toda gentil.

E aí ela sai correndo, atravessando os anos, e para sempre, à procura do Menino Jesus.

Em “Esperando o Natal” (Instituto Mainumby)   Autor anônimo

Agnes G. Milley

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

EmContando – 63 - São Nicolau

Muito longe, no Oriente, vivia um bispo piedoso chamado Nicolau. Certo dia, ouviu contar que no Ocidente havia uma cidade onde todas as pessoas sofriam grande fome, inclusive as crianças.

Nicolau chamou, então, os seus servos que o amavam muito e lhes falou: “Tragam-me frutas de seus pomares e colheitas de seus campos para que possamos saciar os famintos.”

Os servos trouxeram cestas com maçãs e nozes. Em cima colocaram pão de mel feito pelas mulheres do lugar. Trouxeram também sacos cheios de grãos dourados de trigo. O bispo Nicolau ordenou que todas as dádivas fossem levadas num navio. Era um navio grande e bonito, todo branco e sua vela era azul, como o azul do céu e do manto do bispo Nicolau.


O vento soprou na vela do navio para que ele andasse, e quando o vento se cansou, os servos pegaram os remos e levaram o barco para o Ocidente. Viajaram muito tempo: sete dias e sete noites.

Quando chegaram à grande cidade era noite e não se via ninguém nas ruas, mas as luzes brilhavam pelas janelas das casas. O bispo Nicolau bateu numa janela. A mãe que morava na casa pensou ser um viajante pedindo abrigo e mandou o filho abrir a porta. Não havia ninguém na frente da porta. A criança correu até a janela. Também não viu ninguém, mas encontrou uma cesta cheia de nozes e maçãs vermelhas e amarelas, e não faltavam pães  de mel. Ao lado da cesta havia um saco repleto de grãos dourados de trigo.

Todas as pessoas comeram das dádivas e ficaram fortes e alegres. Agora São Nicolau está no céu.


Todos os anos, na data de seu aniversário, ele viaja para a Terra, monta seu cavalo branco e vai de estrela em estrela. Lá encontra a Virgem Maria; ela recolhe fios de ouro e de prata para fazer a camisolinha de Jesus. Maria então lhe diz: “Querido São Nicolau, volte para as crianças. Leva-lhes tuas dádivas e dizei-lhes que o Natal, o nascimento do Menino Jesus, se aproxima.”

Conto extraído do livro “Erziehungskumst” de Emmy Proske. Tradução de Bárbara Trommer.


Agnes G. Milley

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

EmContando – 59 - Erguendo o Céu

Um conto da tribo Skagit, do Noroeste do Pacífico, contado pela anciã Vi Hilbert. Extraído do livro Peace Tales: World Folktales to Talk About de Margaret Read MacDonald. Linnet Books.

Há muito tempo atrás O Criador estava viajando. Enquanto viajava, seu rosto se iluminava, mas ninguém podia vê-lo. Enquanto viajava levava consigo muitos idiomas, e para cada tribo deu uma língua especial. Em toda a parte que ele ia, dava para cada tribo uma língua muito especial.

Chegou na região do Puget Sound, onde eu moro. Parou e olhou em volta. “Que terra linda! Não preciso ir mai além. Posso parar bem aqui. Esta é a terra mais bonita do mundo”.

Ele ainda carregava consigo muitas e muitas línguas. Então ele espalhou essas línguas em todas as direções e as pessoas não conseguiam se entender. Havia tantas línguas diferentes!

Além disso, o Criador havia deixado o céu muito embaixo. As pessoas altas batiam com a cabeça e havia aqueles que subiam até o mundo celestial e isto não poderia ser permitido.

As pessoas sábias se reuniram e disseram: “Há um jeito se todos nós conseguirmos aprender uma palavra, uma palavra só – Ya-How! que quer dizer, ir em frente, avançar. Podemos preparar uma vara bem longa e resolver o problema. Cada um de nós precisa encontrar uma vara bem comprida. Ainda existem árvores que podem ser transformadas em varas bem compridas. Então cada um de vocês pode ajudar”.

Todas as pessoas se reuniram e aprenderam a mesma palavra: Ya-How!

As pessoas sábias disseram:” Agora coloquem suas varas perto do céu. Todos juntos ... Ya-How!”
E o céu se ergueu um pouquinho.

“Todo mundo tem que tentar com mais força”. “YA..A..A..A..HOW!

O céu se ergueu um pouco mais.

“Quem não está fazendo força? Temos que fazer mais força. E talvez todos tenham que dizer YA..A..A..A..HOW! bem alto.”

E o céu se ergueu mais um pouco.

“Talvez alguém não esteja fazendo bastante força. Esta é a última. Quatro vezes é o número mágico. YA..A..A..A..A..HOW!”

“Conseguimos!”

“Porque todos trabalharam com a mesma intenção, a mesma idéia, o mesmo objetivo vocês conseguiram erguer o céu até o lugar onde ele se encontra hoje. E é por isso que nos dizem:
Trabalhem juntos e por um objetivo comum. É possível fazer muito com apenas uma palavra”.

Agnes G. Milley

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

EmContando – 57 - Dia das Crianças e muito mais

Passamos um fim de semana magnífico! Só posso agradecer a Deus ter podido vivenciá-lo na companhia alegre de meus familiares.

Tudo começou no Parque das Ruínas em Santa Tereza. Faltou o bondinho, é verdade, mas mesmo sem ele a manhã foi esplendorosa. Chegamos ao Parque das Ruínas poucos minutos antes  do início do concerto dos Pequenos Mozart. As oitenta cadeiras reservadas já estavam ocupadas, mas encontramos lugar na mureta de pedras que circunda o pátio do Parque. Debaixo de um céu azul e sol brilhante, desfilaram diante de nós os pequenos músicos vestidos de Mozart com suas perucas brancas, casacos vermelhos, calças pretas, meias brancas e sapatos de verniz. Cada um trazia orgulhoso seu precioso violino. No palco, ao ar livre,  acompanhados por piano, executaram peças de Vivaldi, Mozart, Pixinguinha e músicas do folclore brasileiro.  O grupo  é formado por meninos e meninas entre 3 e 14 anos. O concerto foi oferecido pelo programa Música no Museu.

O grupo vai apresentar-se em Viena em janeiro próximo. Será sua primeira viagem ao exterior onde, provavelmente, sentirão o frio do inverno. No Parque, foi o calor  que os incomodou, mas ao final da apresentação   os pequenos artistas foram autorizados a despirem-se de suas perucas e casacos. Mais à vontade ainda nos deram de presente a execução das peças que irão tocar na Europa – música brasileira, clássica e popular.

A presença de muitas crianças na plateia alegrou ainda mais a manhã tão festiva! E o amor e o carinho dos responsáveis pelos Pequenos Mozart foi contagiante. Senti-me privilegiada por participar de um programa tão belo naquele local incomparável. Do Parque você tem a cidade e a Baia de Guanabara a seus pés. Diante de tanta beleza você só pode abrir o coração e dizer Amém!

Um saboroso almoço no Largo dos Guimarães e  uma breve visita às   lojinhas de artesanato completaram nosso Dia das Crianças.

No domingo, após a Missa partimos para a cidade. Perambular  pelo Centro aos domingos é outro programa que  me agrada muito. Com as ruas vazias  o contraste entre o antigo e o moderno da arquitetura da cidade fica mais visível. A História fica às claras!

Paramos no Paço Imperial que era  nosso destino. Fomos   ver os trabalhos da artista plástica Beatriz Milhazes. Ela já nos era querida há muitos anos. A  exposição ocupa todas as salas do Paço e reúne obras de 1989 a 2013. Sua última exposição individual   no Rio ocorreu em 2002, no Centro Cultural Banco do Brasil. De lá para cá Beatriz  obteve consagração internacional, expondo na Europa e em Nova York.

Assim como a música, o calor humano e o encanto da natureza me acenderam a alma no sábado, assim também aconteceu diante da obra   de Beatriz. Tanto talento só pode ser milagre alimentado por um trabalho perseverante e incansável. Parabéns para ela para sua querida família. Juntos respiram essa Bela Arte.

A Exposição de Beatriz Milhazes ainda permanece no Rio  até o dia 27 de outubro. De terça a domingo das 12 às 18 horas. Não percam!

Almoçamos no Bistrô, mas nosso fim de semana não terminou no Paço Imperial. Caminhamos até a Caixa Econômica da Rua Almirante Barroso. Foi a hora das crianças. O Grupo de Contadores de Histórias Com Tapetes  encerrava sua temporada na Caixa. Entre tapetes bordados, caixas mágicas, bonecos e bichos de pano, ouvimos belas histórias sentados em caixotes e almofadas no chão.
Ainda sobrou um tempinho, na segunda-feira, para uma rápida chegadinha à Praia do Leme.

Observação: Como há coisas para se ver e fazer nesse nosso Rio de Janeiro!

Agnes G. Milley

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

EmContando (54) - Clube dos 99

Era uma vez um rei muito rico. Tinha tudo. Dinheiro, poder, conforto, centenas de súditos. Ainda assim não era feliz.
Um dia, cruzou com um de seus criados, que assobiava alegremente enquanto esfregava o chão com uma vassoura. Ficou intrigado. Como ele,  o  soberano supremo do reino, poderia andar tão cabisbaixo enquanto um humilde servente parecia desfrutar de tanto prazer?
“Por que você está tão feliz?”, perguntou o rei.
“Majestade, sou apenas um serviçal. Não necessito muito. Tenho um teto para abrigar minha família e uma comida quente para aquecer nossas barrigas”.
O rei não conseguia entender. Chamou então o conselheiro do reino, a pessoa em que mais confiava.
“Majestade, creio que o servente não faça parte do Clube dos 99.”
“Clube dos 99? O que é isso?”
“Majestade, para compreender o que é o Clube dos 99, ordene que seja deixado um saco com 99 moedas de ouro na porta da casa do servente”.
E assim foi feito.
Quando o pobre criado encontrou o saco de moedas na sua porta, ficou radiante. Não podia acreditar em tamanha sorte. Nem em sonhos tinha visto tanto dinheiro.
Esparramou as moedas na mesa e começou a contá-las: “ ... 96, 97, 98 ....99.”
Achou estranhou serem 99. Achou que poderia ter derrubado uma, talvez. Provavelmente eram 100. Mas não encontrou nada. Eram 99 mesmo.
Por algum motivo, aquela moeda que faltava ganhou súbita importância. Com apenas mais uma moeda de ouro, uma só, ele completaria 100. Um número de três dígitos! Uma fortuna de verdade.
Ficou obcecado por completar seu patrimônio com a moeda que faltava. Decidiu que  faria o que fosse preciso para conseguir mais uma moeda de ouro. Trabalharia dia e noite. Afinal, estava já muito perto de ter  uma fortuna de 100 moedas de ouro.  Seria um homem rico, com 100 moedas de ouro.
Daquele dia em diante, a vida do servente mudou.
Passava o tempo todo pensando em como ganhar uma moeda de ouro. Estava sempre cansado e resmungando pelos cantos. Tinha pouca paciência com a família que não entendia porque era preciso conseguir a centésima moeda. Parou de assobiar enquanto varria o chão.
O rei percebeu essa mudança súbita de comportamento e chamou seu conselheiro.
“Majestade, agora o servente faz, oficialmente, parte do Clube dos 99”.
E Continuou:
“O Clube dos 99 é formado por pessoas que têm o suficiente para serem felizes, mas mesmo assim não estão satisfeitas. Estão constantemente correndo atrás desse 1 que lhes falta. Vivem repetindo que se tiverem apenas essa última e pequena coisa que lhes falta, aí sim poderão ser felizes de verdade. Majestade, na realidade é preciso muito pouco para ser feliz. Porém, no momento em que ganhamos algo maior ou melhor, imediatamente surge a sensação de que poderíamos ter mais. Com um pouco mais, acreditamos que haveria de fato, uma grande mudança. Só um pouco mais. Perdemos o sono, nossa alegria, nossa paz e  machucamos as pessoas que estão a nossa volta. E o pouco mais, sempre vira ... um pouco mais. O pouco mais é o preço de nosso desejo.”
E concluiu:
“Isso, Majestade ... é o Clube dos 99”.
Contado por Diácono Claudino – Paróquia Nossa Senhora da Esperança - Rio

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

EmContando – 52 - Memórias

Morávamos em Weidenberg, na Alemanha, em 1946. Nosso lar era um quarto em um dos compridos barracões ao lado d
a estrada de ferro. Esses barracões tinham sido erguidos para alojar trabalhadores da estrada de ferro. Envelhecidos e abandonados agora abrigavam grupos de refugiados da guerra oriundos de vários países da Europa.

Minhas duas irmãs e eu cumpríamos juntas uma tarefa, diariamente. Anyi, nossa mãe, costurou três sacolinhas de pano florido e com elas íamos ao campo todas as manhãs para colher “sóska”. Da janela de nosso quarto, Anyi podia ver-nos trabalhando. Entre a grama alta e fina, escondiam-se folhas de “sóska”. Essas folhas eram comestíveis e lembravam as folhinhas de bertalha. Creme de “Sóska” era saboroso com batatas cozidas.

O campo das batatas ficava mais adiante. Anyi não podia ver-nos de casa. Colher batatas era um trabalho árduo. Os camponeses as recolhiam, mas sempre ficavam algumas para trás. Nós seguíamos em linha reta pelos sulcos deixados pelos arados, e revolvendo a terra, procurávamos as batatas perdidas. Sempre achávamos algumas. Depois de cozidas, guardávamos as cascas das batatas para tocá-las por um pouco de leite. Fazer essa troca era tarefa minha.

Depois da campina onde colhíamos “sóska” havia uma pequena plantação de hortaliças. Uma vez ou outra eu encontrava um velhinho lá, regando seus canteiros. Ele nunca se dirigiu a mim e eu também não lhe dizia nada. Seguindo adiante eu atravessava um pequeno regato de águas limpíssimas que cantava suavemente enquanto banhava as  pedras. Era ele que fazia as hortaliças crescer. Eu até gostava desse trecho de minha viagem.

Logo depois, meus passos me levavam para dentro de uma floresta que subia pela encosta de uma colina. Meus pés afundavam no espesso tapete formado por folhas e agulhas de pinheiros caídos no chão. O musgo verde me fazia escorregar e os galhos quebrados atrasavam meu caminhar. Muitas vezes surgia na minha frente um  coelho selvagem ou um veado mais assustado do que eu. Eram sustos, mas não medos, ainda. Medo me causavam os humanos. A alguma distância havia lenhadores trabalhando. Falavam alto, gritavam, diziam coisas que eu não compreendia. Não queria vê-los, não queria encontrá-los.

Depois das últimas árvores do bosque eu já podia ver a fumaça que subia mansamente da chaminé da casa da camponesa. Antes de chamá-la eu descansava um pouco. Precisava tomar fôlego. Frau Frida pegava as cascas e derramava um pouco de leite  fresco na minha leiteira de alumínio. Não me lembro se ela era gorda ou magra, bonita ou feia. Não me lembro se me sorria ou não. Recordo, apenas, que lhe  agradecia com tímido “Danke schön” e depois só pensava em estar em casa.

Numa tarde ensolarada decidi-me por uma aventura. Em vez de passar pela floresta pensei em alongar minha caminhada e voltar pela estrada. Chegaria mais tarde em casa, mas eu queria muito fazer algo diferente, mesmo que levasse uma reprimenda.

Andei com cuidado para não derramar o leite. Caminhava contente quando ouvi uma carroça se aproximar. Passou por mim rapidamente levantando uma grossa nuvem de poeira. Reconheci a menina que ia na boleira. Ela morava perto de nosso barracão. O pó baixou e eu continuei meu passeio até que, distraída, quase tropecei numa pequena bolsa amarela. Era linda! Eu nunca tinha tido uma bolsa. Queria muito ficar com ela.

Levei-a para casa e contei simplesmente que ela estava na beira da estrada. Anyi queria saber mais. Eu me atrapalhei e ela não se convenceu. Dormi mal naquela noite. Sonhei com os vizinhos, a estrada empoeirada e com a bolsa amarela caindo da carroça. Na manhã seguinte, Anyi fez-me levar a bolsa até a casa da menina. Bati no portão várias vezes. Era tão alto e eu tão baixinha! O portão rangeu e eu me vi frente a frente com a dona da bolsa. Ela riu com muitos “danke” agradeceu e fechou o portão.

 Agnes G. Milley

sexta-feira, 12 de julho de 2013

EmContando – 42 - Olhando só para ele

Conta-se que Ciro, Rei da Pérsia, durante uma de suas campanhas, venceu e aprisionou um príncipe da Líbia.

O príncipe foi levado ao Rei  vencedor, juntamente com sua esposa e filhos. Ciro perguntou-lhe:

“Que me darás se te conceder a liberdade?”

“A metade do meu reino.” – foi a resposta.

“E se der, também, a liberdade a teus filhos?”

“Entrego-te, nesse caso, a outra metade do meu reino.”

“Que me darás, então, pela liberdade de tua esposa?” – tornou a perguntar o rei persa.

Percebendo que agira precipitadamente ao oferecer tudo o que tinha, esquecido de sua companheira, o príncipe, depois de meditar um pouco, disse-lhe:

“Entrego-me a mim mesmo pela liberdade de minha esposa.”

O grande rei ficou tão surpreso ao ouvir esta resposta que concedeu liberdade a toda a família sem exigir resgate nem fiança.

Ao regressar a casa, perguntou o príncipe a sua esposa se não havia reparado na fisionomia serena e altiva do soberano persa.

Ela respondeu:

“Não olhei, absolutamente, para o Rei, nem para os nobres que o  cercavam,  pois tinha  meus olhos fixos naquele que estava disposto a dar-se a si mesmo pela minha liberdade.”

CANFIELD J. e HANSEN M. V. Chicken Soup for the Soul. Florida. Health Comunications, Inc., 1993 Tradução: Agnes G. Milley

sexta-feira, 5 de julho de 2013

EmContando – 41 - Coisas da Idade

Há alguns anos sou velhinha de carteirinha com direito a passe livre nos ônibus. O estranho é que se não houvesse RG e espelho eu não sentiria, como se costuma dizer, o peso dos anos. Muito pelo contrário, os anos não pesam muito, me libertam.

Foram-se as dores de cotovelo, as enxaquecas e muitas outras mazelas da juventude e da vida adulta.  Visto-me com mais liberdade e encontrei bons calçados para acomodar  meu joanete. Passaram também as dores na coluna cervical causadas pelas longas horas curvada sobre provas e trabalhos de meus alunos. Até a tendinite foi embora. Não carrego mais bolsas cheias de livros e  de papéis. Procuro sentar-me  ereta quando escrevo e até um câncer ficou para trás.

Com a graça de Deus, estou um pouco mais organizada, serena e tolerante. Olho para os mais jovens em suas ânsias, tropeços, erros e acertos. Sinto um calor na alma e penso: “Foi assim também comigo. Como sofri! E como devo ter feito outros sofrerem!”

“Ser idosa, então, é bom?” Eu diria  que pode ser bom, assim como poder ser bom ser criança. Depende das circunstâncias e do modo de se ver a vida.

Há algo de surpreendente quando os outros veem a sua idade e você não se dá conta dela. Surpreendo-me, por exemplo, quando me oferecem lugar no ônibus. Não querendo ser indelicada, aceito e agradeço, mas muitas vezes parece-me que aquele que me cede o lugar precisa mais de repouso do que eu.

Outro dia, passei por um grupo de meninas que saía da Escolinha. Eram meninas bem pequenas, acompanhadas por inspetoras,  e dirigiam-se para o orfanato onde vivem. De repente, senti a mãozinha quente de uma delas  segurando a minha. Começamos a conversar enquanto a fila andava. Ela me fez uma porção de perguntas. Lembrando-me de meus tempos de professora, perguntei:

“Pareço uma tia, não?” A resposta veio prontamente:

“Não, você parece uma avó.”

Mais surpreendente ainda foi o que me aconteceu na porta de um banco. Eu levava meus livros dentro de uma  pequena mala. A porta giratória travou. Reclamei. Só havia papel na mala. O guarda tentou justificar-se com argumentos sem pé nem cabeça até que pressionado confessou ter travado a porta e disse:

“A senhora me desculpe, mas  é que o último assalto, aqui,  começou com uma senhora de idade.”

Certa vez, um senhor de mais de oitenta anos de idade descreveu sua velhice assim:

“Sinto que o tempo passa quando olho minha estante e conto os livros que já não terei tempo de  ler.”
Isso me impressionou de verdade, uma vez que   guardo volumes e mais volumes para ler quando eu tiver tempo, e pior, ainda compro livros.

Agora eu tenho um outro problema. Não me basta ler, quero também escrever. Há tantas histórias para contar!

Amigos dizem-me, com sabedoria:

“Tempo se faz.”

Eu tento.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

EmContando – 40 - Memórias

Um herói sem medalhas
Obs.: Este episódio se deu ao final da Segunda Guerra, na Alemanha, quando éramos conduzidos para um albergue numa aldeia chamada Heinesreuth, próximo a Bayreuth, cidade de Richard Wagner, o compositor.

Éramos um grupo bem grande de pessoas de todas as idades, na maioria idosos, mulheres e crianças. 
Atravessávamos um bosque como aqueles dos contos de fadas dos Irmãos Grimm. Árvores altas, eretas, de tronco liso e copa pequena deixando entrar a luz do sol.  Baixos arbustos de frutas silvestres aqui e ali. Singelas flores do campo por toda a parte. Borbulhar das águas de fontes e regatos correndo ligeiras por cima de pedras e cascalhos.  Assim era nossa floresta, mas naquela tarde não prestamos muita atenção a ela, e os pássaros, lebres e corças, assustados com  nosso barulho, devem ter se refugiado mais além.

Soldados conduziam o grupo com suas baionetas às costas. Davam ordens e instruções numa língua  estranha para nós. Algumas vezes faziam-nos abaixar e rastejar como cães de caça. Sentíamos, então, de perto, o cheiro da umidade  da terra ,  do musgo e das folhas e agulhas de pinheiros  que atapetavam o chão. Tudo isso se misturava com certo medo, pois não  compreendíamos bem o que se passava.

Mamãe estava atrapalhada. Ela não podia perder-nos. Éramos três meninas pequenas e ela não podia segurar-nos a todas como desejaria. Minha irmã mais nova ainda nem andava. Além disso , mamãe   levava uma valise com documentos, retratos de família e não sei bem mais o quê. Sem que o esperasse, um dos soldados tirou a valise de suas mãos e carregou-a por alguns metros. Desculpando-se, sorriu para ela com doçura. Era muito jovem, quase um adolescente. Procurando com muita dificuldade as palavras, conseguiu, enfim,  dizer: “Sinto muito, mas somos proibidos de ajudar os refugiados” e acrescentou bem devagar: “Meus avós, na América, ensinaram-me um pouco de sua língua. Eles também eram húngaros.” Olhou-nos  com o coração e depois retomou  seu posto.

Mamãe contava esse pequeno episódio com a voz embargada de gratidão.
                                                                                                                              Agnes G. Milley

sexta-feira, 21 de junho de 2013

EmContando - 39 - Lições de cada dia

Cheguei  de mais uma visita ao CTI. Minha amiga está se recuperando, graças a Deus. Está mais corada, respira melhor e hoje olhou-me bem nos olhos. Vim com o coração mais leve.

Desci do ônibus no Largo dos Leões. Tião estava sentado no banco verde da praça arborizada. Cochilava tranquilo com o queixo caído no peito. Tião é forte, em torno dos 60 anos de idade. Tem a pele escura e cabelos crespos, ligeiramente grisalhos.  Seu semblante é sempre sereno e só fala o necessário.

Como extensão do banco verde, ele enfileirou uma série de caixotes servindo de balcão para sua livraria de segunda mão. Além de livros, vende DVDs, CDs, muitas vezes clássicos, e reserva um cantinho para pequenos objetos como caixinha de música, abotoaduras, bichinhos e flores de gesso, antigas imagens de santos, caixinhas de porcelana ... Tudo muito velho, tirados do baú.

Tião dormia tranquilo. Passei por ele e sorri. Parecia feliz em sua simplicidade. Rapidamente, desviei os olhos para um barulho no asfalto. Os carros estavam parados na faixa, esperando o sinal abrir quando surgiu do nada uma espécie de skate quadrado com um passageiro nele sentado, sem pernas. Ele vinha em toda a velocidade em direção dos carros, e no último instante, antes de bater, girou o corpo e seu veículo subiu pela rampa da calçada, esbarrando de leve na mocinha que ali fazia seu estranho trabalho. Ela assustou-se, deu um grito, mas logo os dois riram do incidente.

A
mocinha, quase uma adolescente, tirava latas de alumínio de um saco, na beira da rua, e jogava-as sobre asfalto no momento exato  em que o sinal abria para os carros. As latas pipocavam debaixo das rodas e quando os carros se afastavam e o sinal fechava novamente, ela corria e recolhia as latas achatadas e jogava outras. Era esse o seu trabalho. Fiquei encantada; sorri de novo. Ali, tão pertinho, no tempo e no espaço, três cenas tão inusitadas!

Minha amiga, Tião, o jovem do carrinho e a menina das latas me acalentaram o coração naquela tarde. Quatro vidas, quatro histórias, quatro pessoas lutando pela vida superando o quase insuperável, esperando, confiando   e sem complicações, fazendo  a vida acontecer.


                                                                Agnes G.Milley

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

EmContando – 18 - O sono

Por Agnes G. Milley
Dormi pouco e muito mal. Acordei cedo e passei a manhã fazendo bobagens por conta do sono que me torturava. Trabalhar com sono é sofrido, além  do tempo  perdido.
Procurei  o resultado de um exame em todos os envelopes  etiquetados como EXAMES MÉDICOS . Era urgente achá-lo, mas não estava em  nenhum  dos envelopes, relativamente bem organizados.  Depois de   afligir-me bastante  , veio-me à cabeça a pergunta assustadora: será que o  abandonei em algum lugar? Farmácia, supermercado, banco, banca de jornal..? Isso tem me acontecido com certa frequência. Parei, me  recolhi e então veio a resposta em forma de mais uma pergunta: 
“Será que você pegou esse exame no laboratório no mês passado?” Telefonei . Ele estava lá, no laboratório, esperando por mim.
Depois,  tentei fazer as contas das despesas da semana , na calculadora, três vezes, e obtive três   resultados totalmente diferentes a cada nova tentativa.  Acabei por optar pelo papel e lápis e aí deu tudo certo.
 Parti ,então,  aliviada, à procura da história da semana que também não achei, mas reencontrei um pequeno conto africano que me fez rir pela coincidência.

O Sono dos Três Irmãos
O velho fazendeiro morreu e os dois filhos mais velhos não se preocuparam com nada, apenas o caçula passou a noite ao lado do pai morto, chorando até a manhã seguinte, quando adormeceu de cansaço. Os irmãos mais velhos decidiram, então, dividir entre si a herança, enquanto o caçula dormia. Um ficou com a casa e os campos, o outro se apropriou dos estábulos e dos animais. Quando o caçula acordou, disseram-lhe, zombando:

“Dividimos a herança enquanto você dormia, para você sobrou apenas o sono!”

Os vizinhos estranharam que o caçula tivesse ficado quieto diante dessa injustiça, e além do mais, parecia divertir-se com a situação!

Os irmãos puseram-se a trabalhar e tiveram que trabalhar muito, pois lhes faltava agora a força do pai e a ajuda do caçula que se deitara na sombra e adormecera novamente.

À noite os dois moços que se achavam muito espertos, deitaram cansados nos seus leitos de palha, mas no momento em que o mais velho tinha adormecido  o caçula foi lá, chacoalhou-o e disse:
“Ei, você não pode dormir, o sono é meu, só meu”.

E assim fez com o outro irmão também e por noites seguidas acordava-os cada vez que adormeciam. Os dois não se aguentavam mais em pé e foram falar com o homem sábio da aldeia. Este, rindo, sugeriu-lhes que fizessem a divisão da herança mais uma vez, com o caçula presente e de  forma justa.

Não viram outra alternativa, pois estavam tão exaustos que nem conseguiam mais trabalhar.
E esta história é contada na África até os dias de hoje.

(Recontado por Karin E.Stasch em “Um Coração Contente” – Ed. Fernando Bilah, Botucatu – 2007)

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

EmContando – 17 - O resgate

Por Agnes G. Milley
Voltando um pouco no tempo, quero contar uma sucessão de episódios que me emocionaram bastante.

Tudo começou na quinta-feira antes do Natal. Fazia muito calor e decidimos procurar um ar fresco na rua. Fomos até a Lagoa para ver a Árvore.   Paramos  na beira da lagoa no trecho bem em frente à Igreja Santa Margarida Maria. A Árvore estava bonita como sempre, mas dessa vez a protagonista da noite não foi ela.

Minha netinha Mariana viu a água se mexer e perguntou ao pai:
“Aqui tem peixe ?” Logo em seguida pessoas a nosso lado começaram a chamar aflitas: “Olívia, Olívia.... aqui Olívia”. Foi muita comoção, choro e desespero.  Aos poucos fomos entendendo que o movimento que Mariana vira na água era de um cachorro nadando com dificuldade.Olívia, a cachorra, era velha e cega. Por um momento de descuido da família, ela deu um passo em falso e mergulhou na água escura da lagoa. Gritos e correria se seguiram por alguns minutos até que uma jovem ligou do celular para alguém, explicando que a dona da cachorra estava passando mal e precisava de ajuda.

“Chamem os bombeiros, chamem os bombeiros” era  o que ouvíamos  além das vozes aflitas da família que continuava  a chamar por Olívia      já  engolida pela escuridão.

Não demorou muito e és que surge um barco todo branco engalanado com luzes vermelhas e azuis, tripulado por vários homens dispostos a achar a Olívia. Era o barco de apoio à Árvore. Ele  circulou pela lagoa, lanternas piscaram, o mangue foi vasculhado, mas nada de Olívia.

Chegaram os bombeiros também  . Alguns  homens ficaram na margem, outros no manguezal e mais   dois  se juntaram  aos do barco.  Cada folha que caía, cada pio de ave ou batida de onda era um sopro de esperança. Confundia-se qualquer som com o  possível gemido de Olívia cansada.

Os corredores, ginastas e ciclistas curiosos, aos poucos, se retiraram. Os que ficaram tentavam consolar os donos da cachorra. Mariana não perdia as esperanças. “Ela pode estar viva ainda”,   murmurava  baixinho e não quis vir embora até saber o desfecho da busca.

Subitamente, lá do meio da lagoa vieram  gritos de vitória. Olívia estava viva.  Os homens do barco  ganharam o dia, a dona de Olívia ajoelhou-se abraçada a seu animalzinho e os agradecimentos e votos de Feliz Natal foram os mais sinceros e calorosos que eu jamais poderia imaginar. Olívia, agora de coleira, caminhava satisfeita, ignorante das emoções que  acendera durante aquelas quase duas horas.

Na manhã seguinte dei falta de minha carteira de dinheiro. Não consegui entender como alguém poderia ter me roubado na noite anterior. Mistério! Nenhum de nós três conseguiu lembrar-se de  alguma situação que pudesse ter favorecido um batedor de carteira.

Telefonei para os bancos, cancelei meus cartões e fui à delegacia para registrar a perda de minha carteira de identidade e CPF. Já mais calma, em casa, atendi o telefone. Um voz  rouca se identificou como  dono da banca de jornal onde paramos na noite anterior para beber água.

Ele disse: “ Hoje cedo, quando abri a banca, achei uma carteira.  Encontrei  nela um cartão com esse telefone. A senhora é a dona Agnes? Se a carteira é sua pode vir buscá-la. Vou ficar aqui o dia todo. Um bom dia para a senhora”.

De fato foi um bom dia. Com a Olívia e minha carteira salvas eu só pude agradecer tamanha solidariedade quase nas vésperas do Natal.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

EmContando – 16 - A Árvore dos Problemas

Terminaram as Festas, e até os Reis Magos já retornaram para suas terras distantes, levando a Boa Nova  a muitos por onde passaram.

Para nós a viagem continua aqui mesmo. São nossas atividades diárias que devemos retomar da melhor maneira possível. Durante o período das Festas parece que nos mudamos um pouco para as nuvens e agora precisamos  por, de novo, os pés no chão e lidar com tudo aquilo que deixamos um pouco para depois.   Após as despedidas de parentes e amigos que partilharam conosco esses  preciosos dias, temos que voltar: pagar contas, por correspondência em dia, mandar  fazer alguns consertos e para muitos  voltar ao trabalho fora de casa.

Há alguns anos ouvi uma pequena história que reencontrei agora e vou dá-la a vocês  como presente de Ano Novo .

A Árvore dos Problemas


Esta é uma história de um homem que contratou um carpinteiro para ajudar a arrumar algumas coisas na sua fazenda.

O primeiro dia do carpinteiro foi bem difícil. O pneu do seu carro furou. A serra elétrica quebrou. Cortou o dedo. E ao final do dia, o seu carro não funcionou.

O homem que contratou o carpinteiro ofereceu-lhe uma carona para casa. Durante caminho, o  carpinteiro não falou nada. Quando chegaram a sua casa, o carpinteiro convidou o homem para entrar e conhecer  sua família.

Quando os dois homens estavam se encaminhando para a porta da frente, o carpinteiro parou junto a uma pequena árvore e gentilmente tocou as pontas dos galhos com as duas mãos.

Depois de abrir a porta da  casa, o carpinteiro transformou-se. Os traços tensos do seu rosto transformaram-se em um grande sorriso, e ele abraçou  seus filhos e beijou sua esposa.

Um pouco mais tarde, o carpinteiro acompanhou a sua visita até o carro. Assim que eles passaram pela árvore, o homem perguntou:

”Porque você tocou a planta antes de entrar em casa?”

“Ah! Esta é a minha Árvore dos Problemas. Sei que não posso evitar ter problemas no meu trabalho, mas eles não devem chegar até os meus filhos e minha esposa. Então, toda noite, deixo os meus problemas nesta Árvore quando chego em casa, e os pego no dia seguinte. E você quer saber de um coisa? Toda manhã, quando volto para buscá-los  , eles não são nem metade do que me lembro de ter deixado na árvore na noite anterior.”

Mais um vez, Feliz 2013 para todos. Agnes.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

EmContando – 15 - O outro Rei Mago

Por Agnes G. Milley
Procurava uma boa  história para esta semana quando minha neta Mariana, de dez anos, sugeriu que fosse a que ela acabara de ler. “É muito longa”, eu disse. “Eu resumo. Vou contando e você digita, que tal?”  

Foi assim que a escolha recaiu sobre essa antiga lenda russa recontada muita e muitas  vezes, tornando-se até tema de um belíssimo filme. O livro que Mariana leu, leva o título de O MAIOR DOS PRESENTES – A história do outro Rei Mago adaptada por Susan Summers –Editora Ática 2002.

O  outro Rei Mago

Há muito tempo existia um homem chamado Artaban. Ele era muito rico e tinha muitos tesouros. Ele tinha três amigos: Gaspar, Baltasar e Melchior. Os quatro estudavam as estrelas esperando que um dia um fenômeno acontecesse. Um dia os quatro estavam olhando o céu e viram uma estrela nova, radiante como o sol. Pelos seus estudos sabiam que o Rei dos Reis havia nascido. Combinaram de se encontrar no Templo das Sete Esferas, bem longe dali, na Babilônia.

Começaram os preparativos. Artaban  vendeu seu castelo em troca de um rubi, uma safira e uma pérola para presentear o Rei dos Reis. No dia seguinte, ainda muito cedo, pegou seu melhor cavalo e partiu para a Babilônia.

 Finalmente, depois de dez dias e dez noites ele cruzou as portas da Babilôbia, mas ao passar por um campo seu cavalo parou. Ele desceu e viu um homem quase morto na estrada. Artaban ficou com pena e resolveu ajudar.  Misturou um punhado de ervas medicinais a um pouco de água e deu ao homem. Depois de dez dias Artaban disse ao homem, quase  curado:  “Eu vou me embora, mas vou deixar um pouco de minha comida e ervas medicinais com você. “ O homem disse: “ Que Deus te abençoe e te dê a paz, mas o Rei dos Reis nascerá em Belém e não em Jerusalém. Então Artaban partiu dali.

Depois de algum tempo, chegou ao Templo, mas não viu nenhum de  seus amigos lá. Encontrou um punhado de pedras e enterrado debaixo delas havia um pergaminho dos reis para ele. Estava erscrito: “Artaban, não pudemos esperar mais. Vamos ao encontro do Rei dos Reis. Artaban olhou para o vasto deserto. Como poderia atravessar o deserto todo sem comida e com o cavalo cansado? Teria que voltar para a Babilônia e comprar uma caravana de camelos e comida. Vendeu a safira e comprou o que precisava. Foi uma viagem árdua pelo deserto.

Quando ele estava passando pela casa de uma jovem mulher resolveu entrar para saber o que estava acontecendo por lá. A mulher contou que três homens haviam passado e dito que encontraram o Rei dos Reis e o presentearam.

De repente as mulheres saíram de suas casas gritando: “Os soldados de Herodes vão matar nossos bebês. A jovem ficou muito assustada e se escondeu no canto mais escuro da casa. Artaban foi para a porta da casa quando um guarda já ia entrando e disse: “Estou sozinho aqui. Se me deixar em paz, vou te dar este rubi.” O Guarda não entrou. A mulher agradeceu a Artaban e disse: “Deus te abençoe meu bom rapaz”.
Artaban procurou por muito tempo o Rei dos Reis. Um dia encontrou um mago  que lhe disse: “O Rei dos Reis nasceu entre os pobres e humildes”. Então, foi entre eles que Artaban foi procurá-lo
.
Já fazia “trinta e três anos  que Artaban procurava o Rei dos Reis e ajudava os pobres. Ele ia fazer sua última busca por Jerusalém. Quando chegou às portas viu uma multidão de pessoas e perguntou a um rapaz:”O que está havendo aqui?” O rapaz respondeu:” Você não sabe? Vai haver uma crucificação de dois ladrões e um homem que se diz filho de Deus.” Então Artaban percebeu que aquele era o Rei dos Reis e foi correndo entregar a pérola a Pilatos, o Governador, para tentar salvar a vida do Rei dos Reis.

 No caminho encontrou uma moça que lhe pediu:”Por favor, tenha piedade de mim, tenho dívidas a pagar e vão me matar porque não tenho dinheiro. Artaban se viu diante de uma difícil decisão: salvar a vida da moça ou salvar a vida do Rei dos Reis. Ela sabia que Deus ia preferir que ele salvasse a moça porque o destino era que o Rei dos Reis fosse crucificado. Mas, de repente, o céu começou a ficar preto  e a terra tremeu antes de Cristo morrer. Caiu uma telha em Artaban. A moça achou que ele estivesse morto, mas ele ainda estava respirando um pouco. Então uma voz suave desceu do céu e disse: ”Não te preocupes Artaban, quando eu estava com sede   me deste de beber e quando eu estava com fome,   me deste de comer. A cada vez que ajudaste a um de meus filhos, por mais pobre ou indefeso, estavas me ajudando, e    me verás sim, só que no reino dos céus. Artaban deu um último sorriso de alegria.