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sábado, 4 de julho de 2015

Curtindo o frio

Por Verônica Lunguinho

O frio está aí em praticamente todas as regiões do Brasil. É super comum escutar as pessoas dizendo ou que detestam ou que gostam de "curtir o frio". Eu até falava isso normalmente, até ver a forma que meu filho de dois anos curte o frio. E cheguei à conclusão: Curtir o frio é para os fortes!

Essa história de ficar embaixo das cobertas assistindo a um filme, lendo um livro, tomar chocolate quente é para quem quer se aquecer do frio.

Curtir o frio mesmo é fazer o que Miguel faz. Tira toda a roupa na maior felicidade e grita:
-Uhuuu!! Vou tomar banhooo!!

E, no meio do banho, abrir bastante o chuveiro e gritar festejando:
- Friiiiaaa!! Friiiaaa!! (Sorrindo e pulando de felicidade, gente!!)

Curtir o frio é pedir:
- Mãe, qué suco...
... e recusar o caldinho de carne morninho...

Curtir o frio é falar:
- Vamu compá sovête, mãe?

Curtir o frio é tirar a meia umas cinquenta vezes por dia e sair descalço pisando no chão gelado. (E eu tenho que curtir recolocá-la mais cinquenta vezes...)

É dormir encostado na parede gelada.

É querer lavar a mão toda hora.

É driblar a mãe e sair correndo em meio ao vento que o espera depois que a porta de casa se abre.

E eu que achava que era calorenta...

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Grandes exemplos - São Luiz Gonzaga

Este foi um grande homem, sua história serve para contarmos às nossas crianças; é  um ótimo exemplo de vida . Ele nasceu na Itália em 9/3/1568  e morreu em 20/6/1591, logo comemoramos ainda este mês a vida deste grande homem;  e foi canonizado em 1726,  e é  padroeiro dos estudantes jovens,  padroeiro da juventude cristã.

Luiz era o mais velho dos filhos do Marques de Ferrante  que serviu ao rei Filipe II da Espanha. Ele queria que o filho fosse um grande militar. Aos 4 anos  foi enviado para um campo militar e andava vestido com uma miniatura de armadura e uma espada, sem querer  ele disparou um canhão e foi devolvido para casa. Aos 7 anos teve uma visão espiritual e decidiu seguir a vida religiosa.

Aos nove anos seu pai o colocou aos cuidados de um tutor  para aprender o Latim e o italiano puro, mas gostava mesmo era dos estudos dos santos. No mesmo ano fez seus votos de castidade. Já com 11anos Luiz decidiu renunciar aos títulos e propriedades que tinha herdado. Logo depois ele contraiu um dolorosa doença renal que o atormentou pelo resto de sua vida, o que deu a ele uma desculpa para gastar mais tempo em orações e ler a vida dos santos. Praticava então severos e austeros jejuns com pão e água e não acendia fogo para rezar no inverno. ele Começou a se preparar com a idade de 12 anos para ser um missionário jesuíta, reuniu um grupo de jovens pobres e começou a ensiná-los o catecismo durante os feriados de verão.

Em 1581 Don Ferrante foi chamado a servir a Imperatriz Maria da Áustria na sua viagem da Bohemia a Espanha. Sua família o acompanhou e ao chegarem na Espanha, Luiz foi colocados ao serviço de Don Diego, príncipe das Austurias como pagem. Ele teve então que cuidar do príncipe e estudar com ele, mas não se distraia da suas devoções.Durante o tempo na corte do Dom Diego, Luiz resolveu entrar na Companhia de Jesus . Obteve primeiro a provação de sua mãe e em seguida disse ao seu pai que queria entrar para a Ordem dos Jesuítas e este furioso não deu a sua permissão, até que amigos intermediaram a questão e finalmente deu sua consentimento provisório.

 Após a morte do príncipe foi dispensado dos seus deveres na corte, mas o pai tentou distrai-lo enviando a visitar cortes no norte da Itália em 1584. Ele esperava que o rapaz sucumbisse a vida fácil e farta na corte italiana. Ele foi tentando de tudo para demovê-lo da ideia de ser um jesuíta. Quando isto não funcionou, Dom Ferrante usou como seu ultimo esforço os dignitários da Igreja para falar com o seu filho a respeito. Finalmente persuadido a aceitar a vocação de seu filho. Em 1585 permitiu que a Luiz entrasse para a Ordem dos Jesuítas em Roma.

Em 25 de novembro de 1585 ele recebeu o noviciado jesuíta na Casa de Santo André. Como tinha sua saúde abalada os jesuítas ordenaram que moderasse a sua austeridade. Era obrigado a descansar, comer mais e era proibido de rezar fora dos horários. Foi enviado a Milão para mais estudos e teve uma visão numa oração matinal que não viveria muito mais. Isto encheu seu coração de gloria e alegria.

 Sua saúde debilitada forçou o seu retorno a Roma. No ano seguinte a praga tomou conta de Roma. Os jesuítas abriram um hospital e Luiz foi permitido ajudar os pacientes, banhá-los e cuidar deles. Acabou contraindo a praga e sobrevivendo após receber os últimos sacramentos.

Uma noite Luiz caiu em êxtase e passou toda a noite neste estado e disse ao seu confesso que iria morrer na oitava de Corpus Christi. Naquele dia ele estava muito melhor e o Reitor falou até em enviá-lo a Frascati. Mas Luiz manteve a sua crença que iria morre naquele dia e pediu a extrema unção do Padre Bellarmino. Logo depois Luiz ficou imóvel as vezes murmurando "em suas mãos Oh Senhor" e com olhos fixos no crucifixo ele faleceu com idade de 23 anos. Sua festa é celebrada no dia no dia 21 de junho.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

"Como é, hein menino?!"

Por Raquel Suppi

Estou sempre contando causos engraçados e inusitados da família, que envolvem os filhos – geralmente os meus –, e hoje não será diferente. Contarei mais uma do Pedrinho, o nosso filho do meio, de quase três anos.

Ele é uma das nossas três grandes alegrias! Agitado e peralta, está sempre animando o nosso dia, não importa onde estejamos. O pediatra brinca dizendo que a nossa vida seria muito sem graça e monótona, sem ele. Verdade! Nossa família não seria a mesma se não existisse qualquer um deles! Chega a ser inimaginável! Cada um dos três filhos tem um dom único, especial, absoluto e insubstituível! Eles plenificam a nossa felicidade! Então, voltando ao Pedro, sim, definitivamente a nossa vida seria insuportavelmente insossa, sem ele!

Nosso pequeno é uma figura! Independente e genioso, não se deixa intimidar pela baixa estatura, e luta pelo que quer até onde pode – ou pensa que pode! Gosta e sabe como liderar e controlar a situação. Quando vamos assistir TV, por exemplo, precisa não só ligar e fazer tudo sozinho e sem ajuda, como quer ter o direito de ficar com o controle remoto na mão – ainda que a família esteja toda reunida. Então, quando necessário, podamos seu comportamento, caso acabe se sobressaindo exageradamente e prejudicando os demais. Espírito de liderança é algo super positivo, desde que não seja confundido com autoritarismo e egoísmo. É isso que tentamos mostrar para ele – principalmente –, e sei que, aos poucos, ele está compreendendo!

E, se por um lado é extremamente mandão, também sabe ser carinhoso como poucos. Pode até ficar meio rabugento, se está com sono, mas, em compensação, quando está de bom humor, é quase impossível tirá-lo do sério! Tem uma risada para lá de gostosa e cativante! Chega a ser difícil permanecer firme, em certas ocasiões, por conta do seu jeitinho único e autêntico de ser! Além disso, é de uma sensibilidade incrível, esteja ele bravo, chorando ou sorrindo. Consegue captar, muitas vezes, a nossa própria emoção ou como vamos reagir.

Esses dias, por exemplo, chegou do colégio bastante cansado e enjoado. Dizia que não ia almoçar, pois queria chocolate – a sua grande paixão! Obviamente, não cedi e disse que iria trazer a sua comida. Ele se aproximou, com expressão de raiva, e “bufou – cuspindo um pouco –, encarando o tempo todo. Sabia exatamente que não toleramos esse tipo de comportamento. Permaneci séria, devolvendo o olhar, torcendo que ele não repetisse a malcriação. Cheguei mais perto e me agachei, para ficar da sua altura e, quando estava formulando o que ia dizer, ele soltou:
- “Como é, menino?!”, fala mamãe: “como é, hein menino?!” ... – e abriu um sorrisão, deixando a sua charmosa covinha na bochecha, à vista!

Fiquei boba e impressionada, porque era exatamente o que eu ia falar. Só então me toquei que devia dizer isso com frequência, mas ele já devia saber disso há muito tempo! Por um milagre consegui evitar a risada, mesmo diante de uma perfeita encenação de mim mesma! (Risos). Ele usou a mesma entonação da voz e até a expressão do rosto! Muito observador! No final, acabei mudando o discurso, para não parecer tão previsível. E deu certo! Ele se desculpou, deu um abraço forte e ainda almoçou, sem reclamar.

Depois, relembrando, ri muito! Como mãe, sempre espero e me esforço para conhecer, suficientemente, os meus filhos, a ponto de saber quando estão bem ou se algo vai mal; quando mentem ou falam a verdade e, até mesmo, prever a reação que terão diante de algum fato ou notícia. Aí, de repente, eu me deparo e me surpreendo com um “pingo de gente” de dois anos, que parece estar se saindo muito bem em conhecer a própria mãe! É um “malinha” lindo e esperto – que amo demais e não troco por nada! (Risos).

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O call center, o Sr. Francisco e o Miguel


Uma das funções dos filhos é mostrar a nós que não temos o controle da situação. Lá vou eu contar uma dessas situações para vocês entenderem. Nessa história, meu filho saiu do papel de figurante para protagonista. A história é um pouquinho longa, mas vale à pena.

Há quase um ano venho recebendo ligações e mensagens de SMS de uma rede de hipermercados. Nas ligações, o atendente sempre diz: “Por favor, senhor Francisco?”. Eu explico que o número não é do senhor Francisco, peço para atualizarem o cadastro, o atendente diz que vai atualizar, pede que eu desconsidere a ligação, desculpa-se pelo incômodo e desliga o telefone. No outro dia, a ligação se repete. Ou então o SMS: “Sr. Francisco, favor encontrar em contato no telefone 0800...”

Vou reforçar: há quase um ano eu venho recebendo essas ligações e mensagens. É um pouco de tolerância misturada a um pouco de rotina corrida e uma pitada de esquecimento de ligar para a Central de Atendimento ao cliente do hipermercado e dizer que nem cliente deles eu sou. Afinal, para ligar em qualquer central de atendimento é necessário tempo para ouvir as opções dos 24 menus, as 32 musiquinhas e anotar protocolo, nome do atendente, horário da ligação, data... (Se a gente não anota, depois precisa e não tem como se respaldar).

Eis que o grande dia chegou! Aproveitei que a cria estava quietinha rabiscando um papel + o tempo livre + o SMS que havia acabado de receber e liguei na central. Escolhi a opção: “Se você não é nosso cliente, digite 3” e depois “Para outros assuntos, digite 7”. Em menos de 30 segundos (Opa! Bom sinal!), um rapaz me atende:

- Atendimento (Nome da Empresa), Fulano, boa tarde. Com quem eu falo?

- Boa tarde, Fulano. Você fala com Verônica.

- Em que posso ajudar senhora Verônica?

- Olha, é porque há cerca de um ano eu venho recebendo ligações e SMS de vocês por engano, procurando por senhor Francisco. Só que o número que vocês ligam é meu, não é do senhor Francisco. Eu já pedi inúmeras vezes aos atendentes que me ligam que atualizem o cadastro, mas sempre falam que vão atualizar e no outro dia eu continuo recebendo as ligações e mensagens. Por isso estou ligando, para que meu número de telefone seja retirado do sistema.

- Um momento por favor, senhora Verônica.

Silêncio. (Pra mim, melhor que musiquinha!)

Menos de um minuto depois:

- Senhora Verônica, o que pode ter acontecido é que, no momento em que o senhor Francisco realizou o cadastro, o número foi cadastrado errado, por isso a senhora está recebendo as ligações. (Gente, ele levou menos de um minuto para chegar a essa brilhante conclusão!)

- Então, fulano. O problema eu já sei qual é. Mas agora eu preciso da solução, concorda?

- Sim senhora. Mas não há nada que a gente possa fazer.

- Como assim?

- Senhora, não há como alterar o telefone do senhor Francisco no sistema porque eu não tenho os dados dele.

- Sim, mas o meu telefone você tem.

- Mas eu não consigo localizar o cadastro de um cliente pelo telefone. Quando a gente busca um cliente, é pelo CPF.

- Olha, Fulano. Você vai me desculpar, mas eu não acredito nisso. A informática já evoluiu o suficiente para você entrar em um sistema e jogar o telefone de um cliente para encontrar o seu cadastro.

- Senhora, não há nada que a gente possa fazer. Infelizmente.

- Pois agora eu quero falar com algum superior seu. Um gerente de relacionamento, algum supervisor.

- Senhora, não é possível.

-Como não é possível? Eu preciso resolver essa situação! Você lembra do que eu te falei no início? Há quase um ano eu venho recebendo ligações que não são para mim. Eu sou uma pessoa ocupada, não dá para ficar parando e apagando mensagens que não são para mim no meu celular todos os dias, repetindo para os atendentes que retirem o meu número do sistema, pois o senhor Francisco não sou eu. POIS EU NÃO VOU DESLIGAR O TELEFONE SEM RESOLVER ISSO AGORA.

Eis que nesse momento, meu querido filho de um ano e oito meses se aproxima do telefone e aperta aquele botãozinho e eu escuto do outro lado: tu tu tu tu... E fim.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Mea Culpa – Cadê o Prato (Parte II)

Por Verônica Lunguinho*

Título estranho para um texto, não? Pois é. Você só vai entender do que estou falando se clicar aqui e ler a primeira parte dessa história.

Passei uns dez dias achando que meu filho estava sumindo com objetos da casa. Normal, ele tem um ano e dois meses! Mas descobri que grande parte da minha lista de itens perdidos é minha culpa!
Alguns dias depois do pratinho ter sumido, eu já me conformava em comprar outro. As mães experientes que souberam da história diziam “Ah, quando você menos esperar ele aparece!” ou então “Tem coisas que até hoje não encontrei!”. Achando que comigo o mais provável a acontecer seria a segunda opção, já incluí o prato em outra lista: a de compras. Só que eu nunca achava um de menino, todos eram de temas de meninas.

Fui me virando em casa até o dia em que resolvi usar o forno do fogão. Dou um doce pra quem adivinhar quem estava lá, escondidinho... E o pior: com restos de comida secos! (Eca!) Mas quem foi a criatura que fez o favor de colocar o prato dentro do forno?? Eu.

A maternidade mexeu muito comigo, mas muito mesmo. Eu já não era a pessoa mais organizada do mundo com a casa, imagine agora com um filho! A parte boa disso tudo é que os filhos fazem com que a gente se policie. Por mais louco que possa parecer, agora o meu esforço para me organizar é bem maior!

Outra lição que tirei disso tudo é que às vezes projetamos nossos sentimentos em nossos filhos, atribuindo a eles uma culpa que nem sempre lhes cabe. É verdade que o rapazinho tira as coisas do lugar, mas boa parte do que some em casa é falta de atenção minha. Da mesma forma às vezes dizemos “Como o fulano está nervoso” ou “Hoje ele não me deixou fazer nada”. Na maior parte das vezes temos a nossa parcela de culpa. Mas a maternidade está aí para isso: nos proporcionar pequenos aprendizados como esse e nos tornar pessoas melhores...

*Verônica Lunguinho -  é jornalista, casada, mãe do Miguel e mora em Brasília. É católica, gosta de comer e vive dando uma de quituteira nas horas vagas.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Cadê o prato??

Por Verônica Lunguinho*

Sabe aquela música “Faça uma lista de grandes amigos”, do Oswaldo Montenegro**? Mãe de criança de um ano faz uma lista é de itens perdidos! Acontece nas melhores famílias, por que não na minha?

Meu filho tem um ano e um mês. Nessa idade e, em grande parte dos casos, já andando, eles estão na fase de descobrir o mundo.  Pegam tudo que acharem interessante. Os brinquedos? Para quê? Legal mesmo são as vasilhas do armário da cozinha, o sapato do papai, os materiais escolares do tio mais novo, o livro do vovô, as panelas e colheres de pau da vovó... e por aí vai uma lista enooorme de coisas que os pequenos se apossam como objetos de estimação deles.

Todas as famílias passam por um momento de adaptar a casa a esta fase da criança. Tiramos de seu alcance os produtos de limpeza, objetos cortantes, enfim, tudo o que apresente perigo à criança. Eu gosto de deixar meu filho bem à vontade. Quando ele dorme, arrumo tudo em dez minutos e ficamos todos felizes, sem estresse.

Acontece que, de um tempo para cá, comecei a dar falta de alguns objetos. Uns, mais importantes; outros, nem tanto. Fiz uma lista, na cabeça mesmo, e ela já conta com quatro itens: meu RG; um carnê de contribuição voluntária que faço todo mês; a tampa de uma vasilha de plástico que uso muito e um item que tem me ocupado há três dias: o pratinho do meu filho!

É um prato azul e vermelho, de aproximadamente 20 cm de diâmetro. Não é tão difícil encontrar! Já olhei em todos os locais possíveis! Ok, em 98% deles. Embaixo da cama, do sofá, do armário, no lixo, dentro de todos os armários, atrás da pia do banheiro, no meio das roupas limpas, no cesto de roupas sujas, dentro da geladeira, no congelador, dentro do guarda-roupas... Já pedi ajuda a São Longuinho, Santo Antônio, e nada.

O RG eu tiro segunda via. O carnê, peço outro também. A tampa eu acabei achando embaixo da geladeira enquanto escrevia esse texto. Mas... onde foi parar esse bendito prato?? Poxa... é o pratinho do meu filho...

Quero acreditar que um dia, quem sabe numa possível mudança, ele vai aparecer - Ah, vai! Ou não... É... Acho melhor pensar em comprar outro prato.


*Verônica Lunguinho é mãe, jornalista e colaboradora do Negócios de Família, natural de Cubatão, residente em Brasília.
** Música: A Lista (Autor: Oswaldo Montenegro)

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

EmContando – 62 - “Meu Reino por um Cavalo!”

                                  Adaptado do original de James Baldwin
                    
O Rei Ricardo III estava se preparando para a maior batalha de sua vida. Um exército liderado por Henrique, Conde de Richmond, marchava contra o seu. A disputa determinaria o novo monarca da Inglaterra.

Na manhã da batalha, Ricardo mandou um cavalariço para verificar se seu cavalo preferido estava pronto.

“Ferrem-no logo” – disse ao ferreiro. “O rei quer seguir em sua montaria  à frente dos soldados.”

“Terás que esperar” – respondeu o ferreiro. “Há dias que estou ferrando todos os cavalos do exército real e agora preciso ir buscar mais ferraduras.”

“Não posso esperar” – gritou o cavalariço, impacientando-se. “Os inimigos do rei estão avançando neste exato momento e precisamos ir ao  seu encontro no campo. Faze o que puderes agora com o material de que dispões.”

O ferreiro, então, voltou todos os esforços para aquela empreitada. A partir de uma barra de ferro, providenciou quatro ferraduras. Malhou-as o quanto pôde até dar-lhes formas adequadas. Começou a pregá-las nas patas do cavalo. Mas depois de colocar as três primeiras, descobriu que faltavam-lhe alguns pregos para a quarta.

“Preciso de mais um ou dois pregos” – disse ele, “e vai levar tempo para confeccioná-los no malho.”

“Eu disse que não posso esperar” – falou, impacientemente, o cavalariço. “Já se ouvem as trombetas. Não podes usar o material que tens?”

“Posso colocar a ferradura, mas não ficará tão firme quanto as outras.”

“Ele cairá?” – perguntou o cavalariço.

“Provavelmente não” – retrucou o ferreiro, “mas não posso garantir.”

“Bem, usa os pregos que tens” – gritou o cavalariço. “E anda logo, senão o Rei Ricardo se zangará com nós dois.”

Os exércitos se confrontaram e Ricardo participava ativamente, no coração da batalha. Tocava a montaria, cruzando o campo de um lado para outro, instigando os homens e combatendo os inimigos. “Avante! Avante!”, bradava ele, incitando os soldados contra as linhas de Henrique.

Lá longe, na retaguarda do campo, avistou  alguns de seus homens batendo em retirada. Se os outros os vissem , também iriam fugir da batalha. Então, Ricardo meteu as esporas na montaria e partiu a galope na direção da linha desfeita, conclamando os soldados de volta à luta.

Mal cobrira metade da distância quando o cavalo perdeu uma das ferraduras. O animal perdeu o equilíbrio e caiu, e Ricardo foi logo jogado ao chão.

Antes que o rei pudesse agarrar de novo as rédeas, o cavalo assustado levantou-se e saiu em disparada. Ricardo olhou em torno de si. Viu seus homens dando meia volta e fugindo, e os soldados de Henrique fechando o  cerco ao redor. Brandiu a espada no ar e gritou:

“Um cavalo! Um cavalo! Meu reino por um cavalo!”

Mas não havia nenhum por perto. Seu exército estava destroçado e os soldados ocupavam-se em salvar a própria pele. Logo depois, as tropas de Henrique dominavam Ricardo, encerrando a batalha.
Desde então, as pessoas dizem:

Por falta de um prego, perdeu-se uma ferradura,
Por falta de uma ferradura, perdeu-se um cavalo,
Por falta de um cavalo, perdeu-se uma batalha,
Por falta de uma batalha, perdeu-se um reino,
E tudo isso por falta de um prego na ferradura!

Obs.: Ah! Os pequenos detalhes!

Agnes G. Milley
A história  está no Livro das Virtudes, uma antologia de William J. Bennett. Ed. Nova Fronteira.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

EmContando – 59 - Erguendo o Céu

Um conto da tribo Skagit, do Noroeste do Pacífico, contado pela anciã Vi Hilbert. Extraído do livro Peace Tales: World Folktales to Talk About de Margaret Read MacDonald. Linnet Books.

Há muito tempo atrás O Criador estava viajando. Enquanto viajava, seu rosto se iluminava, mas ninguém podia vê-lo. Enquanto viajava levava consigo muitos idiomas, e para cada tribo deu uma língua especial. Em toda a parte que ele ia, dava para cada tribo uma língua muito especial.

Chegou na região do Puget Sound, onde eu moro. Parou e olhou em volta. “Que terra linda! Não preciso ir mai além. Posso parar bem aqui. Esta é a terra mais bonita do mundo”.

Ele ainda carregava consigo muitas e muitas línguas. Então ele espalhou essas línguas em todas as direções e as pessoas não conseguiam se entender. Havia tantas línguas diferentes!

Além disso, o Criador havia deixado o céu muito embaixo. As pessoas altas batiam com a cabeça e havia aqueles que subiam até o mundo celestial e isto não poderia ser permitido.

As pessoas sábias se reuniram e disseram: “Há um jeito se todos nós conseguirmos aprender uma palavra, uma palavra só – Ya-How! que quer dizer, ir em frente, avançar. Podemos preparar uma vara bem longa e resolver o problema. Cada um de nós precisa encontrar uma vara bem comprida. Ainda existem árvores que podem ser transformadas em varas bem compridas. Então cada um de vocês pode ajudar”.

Todas as pessoas se reuniram e aprenderam a mesma palavra: Ya-How!

As pessoas sábias disseram:” Agora coloquem suas varas perto do céu. Todos juntos ... Ya-How!”
E o céu se ergueu um pouquinho.

“Todo mundo tem que tentar com mais força”. “YA..A..A..A..HOW!

O céu se ergueu um pouco mais.

“Quem não está fazendo força? Temos que fazer mais força. E talvez todos tenham que dizer YA..A..A..A..HOW! bem alto.”

E o céu se ergueu mais um pouco.

“Talvez alguém não esteja fazendo bastante força. Esta é a última. Quatro vezes é o número mágico. YA..A..A..A..A..HOW!”

“Conseguimos!”

“Porque todos trabalharam com a mesma intenção, a mesma idéia, o mesmo objetivo vocês conseguiram erguer o céu até o lugar onde ele se encontra hoje. E é por isso que nos dizem:
Trabalhem juntos e por um objetivo comum. É possível fazer muito com apenas uma palavra”.

Agnes G. Milley

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

EmContando – 53 - Memórias (continuação) - Maçãs Secas

 (continuação, clicar aqui)
Mariana estava sentada no tapete com suas perninhas cruzadas segurando um saquinho metalizado do qual retirava pedacinhos de maçãs secas enquanto assistia a um desenho na televisão.

Essa imagem tão simples e doce levou-me de volta a Weidenberg. Já não morávamos no barracão da estrada de ferro. Havia na cidade uma grande marmoraria. Ocupava um terreno perto dos barracões. Os enormes blocos de mármore e granito formavam ruelas, cruzamentos, verdadeiros labirintos perfeitos para brincadeiras de crianças como nós.

A proprietária da marmoraria, uma senhora misteriosa que raramente se deixava surpreender, morava numa bela casa de dois andares na Rua Principal. A marmoraria começava nos fundos de seu quintal. Junto à casa foi construído um anexo, não sei quando nem com que fim. Esse anexo constava de dois cômodos bastante amplos. Era lá que morávamos agora. Não era bom, nem ruim, mas ganhamos mais um pouco de privacidade e independência.

Eram tempos difíceis aqueles anos pós-guerra. Faltava tudo, principalmente para os intrusos habitantes oriundos de outras terras. Éramos estrangeiros num país arrasado por bombardeios, invasões e desordens de todo tipo. A reconstrução exigiria a liderança de homens empreendedores. Herr Schiller, prefeito de Weidenberg, era um homem assim. Não sei se obedecia a ordens superiores ou se as iniciativas com que se pôs a reorganizar  seu pequeno império eram fruto de sua criatividade.Certa manhã todos os estrangeiros que engordavam a lista de habitantes da pequena Weidenberg receberam uma estranha e lacônica ordem.

“Todos devem estar, sem falta, no dia x, às y horas, na estrada na saída da cidade.”

O susto foi geral. Só se falava disso. O medo tomou conta dos mais pessimistas. Alguns chegaram ao pânico e outros até passaram mal, suponho.

No dia e na hora marcados, todos estavam lá, inclusive curiosos locais que nada tinham a ver com a intimação. A saída da cidade estava congestionada por pedestres de todas as idades. Suspense e curiosidade pesavam no ar. Atrás de Herr Schiller iniciava-se uma  inusitada procissão. Em ambos os lados da estrada estavam plantadas macieiras. Algumas eram belas e frondosas, outras mirradas como crianças mal nutridas. Herr Schiller tinha o  nome de todos os seus novos tutelados e conforme seguia a procissão, as macieiras eram  sorteadas entre os que estavam na lista. Palmas, e abraços foram a resposta a tal estranha convocação.

Meses se passaram até que as macieiras produzissem frutos. Quase diariamente fazíamos passeios até nossa árvore querendo ver os primeiros brotos. Crescidas e maduras nossas eram as maçãs mais vermelhas e perfumadas da estrada. Colhê-las foi uma festa regada de emoção.

Mamãe descascava e cortava-as em finas rodelas.  Estendemos largas tábuas sobre alguns dos blocos mais baixos de granito e os cobrimos com panos limpos.  Ali espalhamos as rodelas de maçãs para secarem ao sol. Nossa tarefa de crianças era virar e revirar as rodelinhas algumas vezes ao dia e recolhê-las depois do por do sol. Comemos muitas maçãs frescas naquele outono e guardamos as secas para o inverno.

Mariana mastigava, sem muita atenção, os pedacinhos de maçã sem desconfiar dos pedacinhos de história que alimentavam a memória de sua avó sentada a seu lado enquanto assistia ao “Boo”.

Agnes G. Milley

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

EmContando – 52 - Memórias

Morávamos em Weidenberg, na Alemanha, em 1946. Nosso lar era um quarto em um dos compridos barracões ao lado d
a estrada de ferro. Esses barracões tinham sido erguidos para alojar trabalhadores da estrada de ferro. Envelhecidos e abandonados agora abrigavam grupos de refugiados da guerra oriundos de vários países da Europa.

Minhas duas irmãs e eu cumpríamos juntas uma tarefa, diariamente. Anyi, nossa mãe, costurou três sacolinhas de pano florido e com elas íamos ao campo todas as manhãs para colher “sóska”. Da janela de nosso quarto, Anyi podia ver-nos trabalhando. Entre a grama alta e fina, escondiam-se folhas de “sóska”. Essas folhas eram comestíveis e lembravam as folhinhas de bertalha. Creme de “Sóska” era saboroso com batatas cozidas.

O campo das batatas ficava mais adiante. Anyi não podia ver-nos de casa. Colher batatas era um trabalho árduo. Os camponeses as recolhiam, mas sempre ficavam algumas para trás. Nós seguíamos em linha reta pelos sulcos deixados pelos arados, e revolvendo a terra, procurávamos as batatas perdidas. Sempre achávamos algumas. Depois de cozidas, guardávamos as cascas das batatas para tocá-las por um pouco de leite. Fazer essa troca era tarefa minha.

Depois da campina onde colhíamos “sóska” havia uma pequena plantação de hortaliças. Uma vez ou outra eu encontrava um velhinho lá, regando seus canteiros. Ele nunca se dirigiu a mim e eu também não lhe dizia nada. Seguindo adiante eu atravessava um pequeno regato de águas limpíssimas que cantava suavemente enquanto banhava as  pedras. Era ele que fazia as hortaliças crescer. Eu até gostava desse trecho de minha viagem.

Logo depois, meus passos me levavam para dentro de uma floresta que subia pela encosta de uma colina. Meus pés afundavam no espesso tapete formado por folhas e agulhas de pinheiros caídos no chão. O musgo verde me fazia escorregar e os galhos quebrados atrasavam meu caminhar. Muitas vezes surgia na minha frente um  coelho selvagem ou um veado mais assustado do que eu. Eram sustos, mas não medos, ainda. Medo me causavam os humanos. A alguma distância havia lenhadores trabalhando. Falavam alto, gritavam, diziam coisas que eu não compreendia. Não queria vê-los, não queria encontrá-los.

Depois das últimas árvores do bosque eu já podia ver a fumaça que subia mansamente da chaminé da casa da camponesa. Antes de chamá-la eu descansava um pouco. Precisava tomar fôlego. Frau Frida pegava as cascas e derramava um pouco de leite  fresco na minha leiteira de alumínio. Não me lembro se ela era gorda ou magra, bonita ou feia. Não me lembro se me sorria ou não. Recordo, apenas, que lhe  agradecia com tímido “Danke schön” e depois só pensava em estar em casa.

Numa tarde ensolarada decidi-me por uma aventura. Em vez de passar pela floresta pensei em alongar minha caminhada e voltar pela estrada. Chegaria mais tarde em casa, mas eu queria muito fazer algo diferente, mesmo que levasse uma reprimenda.

Andei com cuidado para não derramar o leite. Caminhava contente quando ouvi uma carroça se aproximar. Passou por mim rapidamente levantando uma grossa nuvem de poeira. Reconheci a menina que ia na boleira. Ela morava perto de nosso barracão. O pó baixou e eu continuei meu passeio até que, distraída, quase tropecei numa pequena bolsa amarela. Era linda! Eu nunca tinha tido uma bolsa. Queria muito ficar com ela.

Levei-a para casa e contei simplesmente que ela estava na beira da estrada. Anyi queria saber mais. Eu me atrapalhei e ela não se convenceu. Dormi mal naquela noite. Sonhei com os vizinhos, a estrada empoeirada e com a bolsa amarela caindo da carroça. Na manhã seguinte, Anyi fez-me levar a bolsa até a casa da menina. Bati no portão várias vezes. Era tão alto e eu tão baixinha! O portão rangeu e eu me vi frente a frente com a dona da bolsa. Ela riu com muitos “danke” agradeceu e fechou o portão.

 Agnes G. Milley

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

EmContando – 51 - Tempo com a Vovó 2 - Caracóis de Estimação

Vocês se lembram do Luigi? (clique aqui pra lembrar)

Pois bem. Voltei a brincar com meu neto. No ano passado, quando ele tinha quatro anos de idade, ele aprendeu a desenhar girafas, leões e outros bichos. Depois de colori-los, ele os recortava e aí começava a brincadeira. Ele era um bicho, eu era outro, e os dois ou mais iniciavam uma conversa que acabava em alguma divertida ou perigosa aventura.

Esta semana ele começou a desenhar caracóis, compulsivamente. Primeiro ele formou uma grande família e depois lhes deu  muitos amigos. Os caracóis  de estimação moravam na minha casa e andavam soltos. Os donos eram imaginários. Eu era um dos caracóis  e ele  o pai da família.

Na sala ele construiu uma casinha com blocos de madeira para que eles pudessem se reunir nela quando tivessem vontade.

“Quem construiu esta linda casinha  ?”, perguntei.

“Ninguém. Nossos  donos   compraram  ela numa loja de animais de estimação. É uma gaiolinha.”

“Eu vim da Turquia”. Comentei , querendo iniciar um diálogo.

“Então você é turquês?”

“Não, sou turco!”, mas de onde vieram os outros seus amigos?”, quis saber.

“Foram comprados em muitos outros países. Eu vim do Japão. Sou japonês.

 Passeávamos com os caracóis pra lá  e pra cá quando eu ameacei pular de um bloco de madeira. Ele levantou os braços assustado:

“Não pule. Caracóis não pulam, escalam.”  Ele aproveitou a situação e me convidou a escalar as montanhas-cama no quarto.

Escalamos montanhas-cama, cadeira, mesa, etc.  e quando descíamos de uma das montanhas muito íngremes,  um dos amigos caiu, e quando sugeri que fosse levado para o hospital,   pois sua concha  havia se quebrado, ele, prestativo e muito resoluto, se adiantou:

“Não, não precisa. Eu tenho conchas-reserva para esses casos. É só recortar uma e colar no lugar com fita durex. Foi correndo pegar seu caderno onde havia desenhado conchas de caracóis de todos os tamanhos. Até uns miudinhos para os bebês.

“Você está vendo? Não precisamos de hospital.”   Em um segundo substituiu a concha quebrada por outra e a brincadeira continuou.

Mais tarde, perguntei quem havia lhe ensinado a  desenhar aqueles caracóis tão bonitos e simpáticos, e resposta veio prontamente:

“ Foi meu cérebro que aprendeu, ele me ensinou e depois mandou a informação para minha mão.” Não é preciso dizer que fiquei com a boca aberta. Diz a mãe dele que deve ter aprendido essas coisas na aula de Expressão Corporal, na escola. Provavelmente.

Observação: Descrevi mais essa brincadeira para  partilhar com vocês essa gostosa diversão e também  para expressar minha surpresa e satisfação em constatar, mais uma vez, como as crianças pequenas  conseguem vivenciar bem suas fantasias. Os contos de fadas e a maioria das histórias infantis levam a criança para esse mundo do faz de conta, da imaginação, mas quando é ela que cria e exterioriza esse mundo fantástico das ideias, então só resta abraçá-la com carinho, continuar a brincar e dar graças a Deus por ela.

Agnes G. Milley

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

EmContando – 49 - Diferenças

Eram exatamente 18 horas e trinta minutos quando abri a porta de casa e respirei satisfeita o ar tranquilo de meu lar. Era hora de tirar os sapatos e parar depois de um dia cheio de tarefas cumpridas. Mas não foi assim. Recebi a notícia de que o aquecedor do banheiro havia quebrado. Eu viajaria na manhã seguinte; fazia muito frio; meu netinho passaria duas noites na minha casa; a babá teria que aquecer, no fogão, a água do banho. Rapidamente senti o perigo e dei meia volta. Em vinte passos estava na esquina falando com o Chaveiro que do celular ligou para o gazista.

“Antônio, você pode me fazer um favor? Tem uma vizinha nossa, daqui pertinho, que está com o aquecedor quebrado e precisa sair amanhã cedinho. Será que você pode passar na casa dela quando sair daí do cliente?”

Às 20 horas meu aquecedor estava em ordem, funcionando melhor que antes.

Esse pequeno incidente me pôs a pensar. Como foi bom eu ter escolhido esse lugar para morar. É tão central e prático! Posso resolver tudo com um pouco mais, ou menos de 20 passos! Quando crianças, meus filhos podiam ir e vir, pegar condução, chegar a qualquer hora sem perigo. Quando eu chegava da faculdade, tarde da noite, sempre havia o bar aberto, afastando a escuridão e o deserto da rua.

É verdade que algum barulho da rua chega a nós, filtrado, mas sempre presente. Por outro lado, vemos a mata e o Cristo Redentor bem de perto. Como é bom morar aqui!

Tenho uma amiga em São Paulo que vai trocar sua casa, em condomínio fechado, por um apartamento no mesmo bairro. O lugar é belíssimo. Os dois únicos edifícios da região sobem altivos deixando lá em baixo as confortáveis mansões de muros altos e jardins floridos. Tudo isso está plantado entre árvores centenárias e muito mais verde.

Ela me diz: “Ouça o silêncio. Aqui só se ouve o canto dos passarinhos e o sopro do vento na folhagem. O ar é puro...! Preciso disso depois de um dia intenso de trabalho e das horas perdidas na tensão do trânsito sufocante desta cidade.”

Concordo, e aprovo, mas não há nada por perto. Nenhum comércio, apenas casas, automóveis dos residentes com os vidros fechados, alguns desportistas correndo pelas  calçadas, ou conduzindo cães em coleiras.

Com esta reflexão, desejo apenas ressaltar as diferenças de nossas necessidades. Assim como não há e nunca houve duas pessoas com os semblantes exatamente iguais, assim também são diferentes  os nossos anseios.

Eu diria, com muita propriedade: Como é belo o mundo na sua  diversidade. Gostaria , no entanto, que todo o ser humano, filho de Deus, tivesse a oportunidade de ir ao encontro de suas necessidades, de seus  legítimos anseios. Seria bom e justo.

Agnes G. Milley

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

EmContando – 48 - Festa de Aniversário

Ainda pode ser assim!

Em setembro de 2004, Martha Medeiros escreveu na Revista O Globo uma crônica sobre o assunto. Gostei tanto que recortei e guardei seu texto  assumindo o compromisso   de encaixar o tema nas conversas com  minhas amigas. Martha rememora  com alegria as festinhas de aniversário de sua infância e lamenta a impessoalidade das festas  de nossos dias.

Eu digo que ainda pode ser assim porque  tenho vivenciado as gostosas  festas de minha neta. Este ano foi em dose dupla, pois comemorou seu  décimo primeiro aniversário junto com o de sua melhor amiga.

No sábado de manhã,   enchemos os balões coloridos que enfeitaram as paredes da sala de jantar. Depois do almoço começamos a decoração da mesa com bombons, jujubas e brigadeiros. Logo  depois, chegaram a amiguinha aniversariante, sua mãe e avó. Da mala do carro saiu a outra metade da festa:  salgadinhos variados, sanduíches, caixas de sucos e as partes do bolo de chocolate que ainda seria montado e decorado.

Aos poucos a festa foi sendo construída a muitas mãos, entre risos e muito vai e vem.  Pais, avós, tias,   tios  e amigos foram  chegando e ocupando as poltronas e cadeiras da sala com pena de não poder também estar no jardim. O frio era intenso!

As meninas, aniversariantes e suas amigas, cheias de segredos, preparavam uma surpresa. Desceram  dançando do andar de cima  envoltas em fantasias   que trouxeram de casa.  A seleção de músicas também foi mérito delas. O show   foi tão contagiante que até as vovós e bisavós entraram na dança.

De repente a música foi interrompida  e as duas aniversariantes anunciaram  seu show de mágicas. Após muitos aplausos e Oh!s e Uh!s cantou-se o Parabéns. Depois os presentes foram abertos como nas festas de Natal.

Os adultos foram-se despedindo aos poucos, e as meninas,  depois de muito brincar, vestiram seus pijamas e terminaram o dia acantonadas no quarto dos  jogos e brincadeiras. 

Assim como a festa foi feita a muitas mãos, assim também a casa foi arrumada num piscar de olhos. Lixo, no lixo, louça na máquina, sobras guardadas, cadeiras no lugar. Tudo em ordem em dois tempos.

O domingo amanheceu tarde, e de pijamas, as meninas tomaram seu café enquanto esperavam por seus pais. Ainda sobrou tempo para estourar os balões.

Para alguns  de nós o fim de semana terminou com a Santa Missa e muitas ações de graça.

Pelo visto, festas de aniversário de crianças como os da infância de Martha Medeiros ainda podem fazer sucesso com uma dose de planejamento, dedicação, criatividade e muito amor. É possível ignorar as barulhentas Casas de Festa, bolos de isopor confeitados à moda da casa e o costumeiro saco ou caixa para os presentes que o aniversariante só abre no dia seguinte e é privado de agradecer pessoalmente  com um beijo e um abraço pelo presente escolhido a dedo, com carinho, para aquela pessoinha tão especial. AINDA É POSSÍVEL!

 Agnes G. Milley   

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

EmContando – 47 - Um tempo com a Vovó

“Vamos brincar?”

“Vamos.”

“Você começa, vovó!”

É sempre assim que começam  nossas brincadeiras. Quando meu neto tinha 3 anos  escolhemos o Rei da Floresta e fizemos a Festa da Coroação. Seu Ursinho Pooh! ganhou uma coroa, cetro, manto e tudo. A coroa foi  uma de minhas pulseiras e o cetro uma caneta. Houve banquete e baile. Todos os seus bichinhos de pelúcia  e plástico compareceram e participaram com grande  espírito festivo.

Depois passamos pela fase do papel, tinta, tesoura, cola e todas as artes. Depois foi a vez das corridas de carrinhos no chão da sala. As listras do tapete eram perfeitas pistas. A motivação era sempre o filme “Carros”, assistido umas duzentas vezes. O DVD nem funciona mais. Está apagado.

Hoje,  dois anos depois,  demos um tempo à fase das artes e agora é tudo faz de conta. As almofadas do sofá desempenham os mais variados  papéis. Podem ser  ilhas desertas, geleiras do Ártico, malas, paredes de cavernas, navios pirata e  até mesmo  almofadas. Além delas só são necessário dois ou três bichinhos ou bonecos. O restante fica por conta do “Imagina que...”

Ele ganhou um minúsculo kart pilotado por  Luigi, um dos personagens de um jogo de vídeo game. Luigi era ele, meu neto, e eu seria um cachorrinho de pano bem maior que o carrinho e seu piloto. Os dois protagonistas da brincadeira teriam que interagir. O cachorro perguntou:

“Por que você é tão pequeno, menor que eu?”

“Porque eu comi um cogumelo e   diminui.  Não posso comer o cogumelo para voltar a ser grande porque o cogumelo está no meu jogo. Eu saí do jogo e não posso voltar nunca mais. Vou ser pequeno para sempre.”

“Você não sente saudades de seus parentes e amigos?” perguntou o cachorro.

“Sinto ... e então eu olho para o retrato deles que eu tenho aqui no meu carro.”

“Você não tem pena de não poder mais voltar?” insistiu o cachorro.

“Tenho às vezes, mas eu prefiro ficar aqui no mundo real. Aqui eu posso fazer as coisas que eu tenho vontade. No jogo eu tinha que fazer o que as pessoas queriam apertando os botões. Aqui no mundo real eu posso viajar, conhecer outras coisas.... “

“Então vamos viajar juntos.” sugeriu o cachorrinho azul.

Os dois resolveram embarcar para a América dos Estados Unidos, mais exatamente para uma cidadezinha bem perto do Arizona. Como nessa cidade não havia aeroporto, eles tiveram que saltar de para quedas levando junto a mala (a almofada).  Dentro da almofada viajava escondido um macaquinho que fez amizade com os dois.

Já na América, o cachorrinho perguntou:

“E agora, como é que eu vou latir em inglês?”

“Você não precisa latir em inglês. Todos os cachorros de todas as línguas latem igual e ninguém entende mesmo o que eles dizem.”

Uma vez no hotel o cachorrinho sugeriu  ao piloto do kart que ele fosse procurar um emprego, mas  o piloto replicou:

“Você não lembra que eu só era piloto no meu jogo? Eu nunca mais vou poder ser piloto.

Nisso chegou a hora de meu netinho se arrumar para ir à escola e teve que deixar o piloto de cart, o cachorrinho e o macaquinho amigo no hotel. Acho que eles ficaram planejando suas próximas aventuras e eu me deliciei  lembrando  do pequeno Luigi que saiu do vídeo game para viver no mundo real.

 Agnes G. Milley

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Os pastorinhos de Fátima - uma linda história para contar às crianças

Aljustrel, em Fátima, é o cenário de uma linda história de amor. A história dos três pastorinhos que nos transmitiram as mensagens da Virgem Maria.

Jacinta, Francisco e Lúcia foram crianças típicas do Portugal da época. Não frequentavam a escola, eram pastores. Após as aparições, por recomendação de Nossa Senhora, entraram na escola primária.
Nasceram em Aljustrel, Fátima, Lúcia em  28 de Março de 1907, Francisco nasceu em 11 de junho de 1908, e Jacinta em 11 de Março de 1910. 

Jacinta era uma criança afetiva e muito afável. Francisco era um garoto calmo e gostava de música, muito respeitoso com pessoas. Lúcia foi a única que falava com a Virgem Nossa Senhora.

As três crianças, costumavam praticar mortificações, mas Nossa Senhora numa das aparições pediu que ele moderasse nas mesmas.

Francisco e Jacinta eram inseparáveis, trocavam confidências e faziam a alegria dos Marto. Seu pai contava com emoção que: desde que Jacinta aprendeu a rezar a Ave-Maria, dizia em vez de “Cheia de Graça”, “Cheia de Graças”, e não houve ninguém que a convencesse a dizer o correto.

Os primos moram ao lado da família de Lucia, as mães eram irmãs. A casa deles era muito pobre: poucos cômodos, poucos móveis, uma humilde lareira e uma cozinha pequena; porém alegre, com a presença da mãe sempre cantarolando entre os afazeres domésticos.

Lúcia ajudava a olhar seus primos, contava histórias e brincavam. Jacinta ficava encantada com a narrativa da Paixão de Cristo e Francisco gostava de jogos de soldados.Tudo corria tranquilo, até o dia 13 de maio de 1917. O mundo estava em guerra e já seguia por mais de 3 anos.

Em uma manhã de domingo, depois da Missa, Lúcia, Francisco e Jacinta saíram em direção a serra, onde juntaram o seu pequeno rebanho de ovelhas. O Tempo passava calmo e entretido. Os pastorinhos já tinham comido a merenda e rezado o Terço. Perto do meio-dia, subiram a um terreno mais elevado e começaram a brincar. De repente as crianças viram como que um clarão de um relâmpago e com um pouco de medo reuniram o rebanho e desceram; logo em seguida, um novo clarão. Pararam confusos e maravilhados: ali, à curta distância, sobre uma carrasqueira de um metro, aparecia-lhes a Mãe de Deus!

Conta Lúcia anos mais tarde: “Era uma senhora vestida toda de branco, mais brilhante que o sol, espargindo luz... estávamos a um metro de distância, e então Nossa Senhora disse-nos”:
- Não tenhais medo, eu não vos faço mal
- Donde é vosmecê?, perguntei-lhe
- Sou do Céu.
- E que é que vosmecê deseja?
- Vim para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos, todo dia 13, nesta mesma hora... Quereis oferecer-vos a Deus para suportar  todos os sofrimentos que ele vos quiser enviar, em atos de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido, e de súplica pela conversão dos pecadores?
- Sim, queremos!
- Ides, pois, tereis muito o que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto...
- Rezem o terço todos os dias...
A Virgem elevou-se no firmamento.

Ao fim da primeira aparição os videntes voltam para casa maravilhados... Lúcia propõe aos primos não dizer nada a ninguém. Mas, na idade da inocência Jacinta não se contém e diz: “Ó mãe, vi hoje Nossa Senhora na cova de Iria!”. E, em poucas horas toda a região já tinha conhecimento da aparição.
Muitos interrogatórios, audiências com sacerdotes e sempre repetindo com muita lucidez e verdade os fatos. Antes da última aparição, os três pastorinhos foram presos, na cela e junto com os demais presos, e eles entreolhavam-se assustados, quando Jacinta propõe: Vamos rezar o terço. Tirando do pescoço uma medalha de Nossa Senhora, pediu ao preso mais alto para pendurá-la num prego; e todos, de joelhos, começaram a rezar o terço. Os presos, um a um ficaram de joelhos. Tudo ofereciam a Deus, sacrifícios e orações.

Depois da última aparição, em 13 de outubro de 1917, quando mais de 70 mil pessoas assistiram o milagre do sol, os dois, irmão Francisco e Jacinta preparam-se para um curto calvário, que os levaria o quanto antes, para junto de Nossa Senhora conforme Ela havia prometido.

Francisco morreu santamente em 04 de abril de 1919. Jacinta depois de uma dolorosa doença, oferecendo todos os sofrimentos pela conversão e pela paz, a pequenina entrega santamente sua alma a Deus; era a tarde de 20 de fevereiro de 1920, em Lisboa. Lúcia foi levada aos Céus no dia 13 de fevereiro de 2005, aos 97 anos, depois de viver na clausura do Carmelo de Santa Teresa em Coimbra.
Francisco e a irmã Jacinta foram beatificados pelo Papa João Paulo II em 13 de Maio de 2000. O seu dia festivo é 20 de Fevereiro.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

EmContando – 46 - O príncipe e a pastora (conto persa)

Era uma vez um príncipe que se apaixonou perdidamente pela filha de um pastor de ovelhas. Foi falar com o rei, seu pai, e este respondeu:

“Um dia você será rei, e como ficará isto, a filha de um pastor sendo rainha?”

“Senhor, meu pai, só sei que amo esta moça e quero me casar com ela.”

O rei, percebendo que aquele amor vinha dos céus, enviou um mensageiro para falar com o pastor. A moça, sabendo do pedido de casamento, perguntou ao mensageiro:

“Que tipo de trabalho o príncipe sabe fazer?”

“Senhorita, o príncipe será rei um dia, ele não precisa fazer nenhum tipo de trabalho.”

“Então diga-lhe que deverá aprender um ofício.”

O rei chamou seu filho:

“A filha do pastor quer que você aprenda a trabalhar com alguma coisa. Continua querendo casar com ela?”

“Sim meu pai, aprenderei a fazer tapetes.

E o príncipe foi ter com um mestre tapeceiro e, com ele,  aprendeu a fazer belos tapetes em diversas cores com os mais variados desenhos. O mensageiro levou  alguns para a filha do pastor, e ela então se casou com o príncipe.

Certo dia o príncipe foi passear pelas ruas de sua cidade. Viu um albergue tão limpo e bonito que entrou para comer alguma coisa. Mas o  lugar pertencia a ladrões que encarceravam os viajantes ricos e depois de tirar-lhes tudo o que era de valor, matavam os gordos para que servissem de comida aos magros.  Como o príncipe era muito magrinho,deixaram-no com vida e aí ele teve uma ideia: ofereceu fazer-lhes belos tapetes que poderiam vender no palácio do rei e assim conseguir mais ouro.
Os ladrões, gananciosos que eram, gostaram da proposta e lhe trouxeram palha e fios de lã coloridos. O príncipe teceu belos desenhos com mensagens escondidas indicando onde estava. Os ladrões, sem perceber nada, foram vender os tapetes no palácio do rei.

A princesa-pastora logo decifrou a mensagem, mandou prender os ladrões e salvou a vida do seu amado.

Agnes G. Milley

sexta-feira, 26 de julho de 2013

EmContando – 44 - A lenda das areias

 (história da tradição sufi)

Vindo desde as suas origens nas distantes montanhas e após passar por inúmeros acidentes de terreno nas regiões campestres, um rio finalmente alcançou as areias do deserto. E do mesmo modo como vencera as outras barreiras, o rio tentou atravessar esta de agora, mas se deu
conta de que mal suas águas tocavam a areia nelas desapareciam.

Estava convicto, no entanto, de que fazia parte de seu destino cruzar aquele deserto, embora não conseguisse fazê-lo. Então uma voz misteriosa, saída do próprio deserto arenoso, sussurrou:
“O vento cruza o deserto, o mesmo pode fazer o rio.”

O rio objetou estar se arremessando contra as areias, sendo assim absorvido, enquanto o vento podia voar, conseguindo dessa maneira atravessar o deserto.

“Arrojando-se com violência como vem fazendo não conseguirá cruzá-lo. Assim desaparecerá ou se transformará num pântano. Deve permitir que o vento o conduza a seu destino.”

“Mas como isso pode acontecer?”

“Consentindo em ser absorvido pelo vento.”

Tal sugestão não era aceitável para o rio. Afinal de contas, ele nunca fora absorvido até então. Não desejava perder a sua individualidade. Uma vez a tendo perdido, como se poderá saber se a recuperaria mais tarde?

“O vento desempenha essa função.” – disseram as areias. “Eleva a água, a conduz por sobre o deserto e depois a deixa cair. Caindo na forma de chuva, a água novamente se converte num rio.”

“Como é que posso saber que isso é verdade?”

“Pois assim é, e se não acredita não se tornará outra coisa senão um pântano, e ainda isto levaria muitos e muitos anos; e um pântano não é certamente a mesma coisa que um rio.”

“Mas não posso continuar sendo o mesmo rio que sou agora?”

“Você não pode, em caso algum, permanecer assim.” – retrucou a voz. “Sua parte essencial deve ser  transportada e formar um rio novamente. O problema é que você ainda não sabe qual é a sua parte essencial.”

Ao ouvir tais palavras, certos ecos começaram a ressoar nos pensamentos mais profundos do rio. Recordou vagamente um estágio em que ele, ou uma parte dele, não sabia qual, fora transportada nos braços do vento.  Pensou , então, que o vento tinha razão, conquanto não lhe parecesse a coisa mais natural.

Então o rio elevou seus vapores nos acolhedores braços do vento, que suave e facilmente o conduziu para o alto e para bem longe, deixando-o cair suavemente tão logo tinham alcançado o topo de uma montanha, milhas e milhas longe dali.

E é por isso que se diz que o caminho pelo qual o Rio da Vida tem de  seguir em sua travessia está escrito nas  Areias.

Agnes G. Milley

sexta-feira, 19 de julho de 2013

EmContando – 43 - O Vento na Ilha

(Conto de Kai Riedeman, recontado por Karin E. Stasch)

Numa pequena ilha no meio do mar havia uma aldeia. Numa das casinhas, logo atrás dos morros que protegiam a aldeia da maré alta, vivia um pescador com sua esposa e duas filhas. O velho saía todos os dias para pescar e quando voltava, era esperado pelas mulheres da ilha que compravam tudo o que trazia.  Um dia, porém, o vento começou a assobiar alto, aumentando a sua força cada vez mais, tentando empurrar o mar por cima dos morros. Naquele dia o pescador ficou em casa, e contou três histórias para suas filhas. No segundo dia, vendo que era impossível sair, contou-lhes mais duas, no terceiro contou-lhes apenas uma e depois se calou durante o resto da semana. As pessoas na aldeia começaram a passar fome, mas sabiam que o velho poderia morrer se arriscasse a sua vida no mar tão agitado e feroz.

Na noite do sétimo dia as meninas decidiram sair e falar com o vento. De mãos dadas subiram o morro e chamaram bem alto:

“Vento, vento, por favor, pare um pouco de soprar e tenha piedade de nós!”

“Se quiserem que eu pare, terão que me dar o que tiverem de mais precioso!”

Assustadas, as meninas concordaram e apertaram as mãos dadas.

“Pois quero os seus nomes!”

As meninas escreveram  seus nomes na areia e as ondas bateram com força na praia e o vento engoliu os nomes.

“E agora quero a sua voz!”

As meninas abriram a boca e o vento tomou-lhes as vozes.

“Por último quero as suas almas!”

As meninas olharam uma para outra e fincaram firmemente os pés no chão, apertaram
as mãos dadas, e com toda a força que tinham no seu coração, disseram NÃO! Em silêncio.

O vento soprou, assobiou, uivou, desfez-lhes as tranças, sacudiu seus vestidas, mas as meninas não deixaram que as derrubasse. E de repente, o vento parou, sumiu ...

As pessoas da aldeia acordaram para ver um mar tranquilo, o pescador saiu a buscar o alimento para todos. Mas nunca ninguém soube porque as meninas tinham emudecido e nem desconfiavam do ato tão corajoso delas. Uma pequena brisa que passa por lá de vez em quando me contou a história da ilha do jeitinho que eu contei a vocês.

Agnes G. Milley

sexta-feira, 12 de julho de 2013

EmContando – 42 - Olhando só para ele

Conta-se que Ciro, Rei da Pérsia, durante uma de suas campanhas, venceu e aprisionou um príncipe da Líbia.

O príncipe foi levado ao Rei  vencedor, juntamente com sua esposa e filhos. Ciro perguntou-lhe:

“Que me darás se te conceder a liberdade?”

“A metade do meu reino.” – foi a resposta.

“E se der, também, a liberdade a teus filhos?”

“Entrego-te, nesse caso, a outra metade do meu reino.”

“Que me darás, então, pela liberdade de tua esposa?” – tornou a perguntar o rei persa.

Percebendo que agira precipitadamente ao oferecer tudo o que tinha, esquecido de sua companheira, o príncipe, depois de meditar um pouco, disse-lhe:

“Entrego-me a mim mesmo pela liberdade de minha esposa.”

O grande rei ficou tão surpreso ao ouvir esta resposta que concedeu liberdade a toda a família sem exigir resgate nem fiança.

Ao regressar a casa, perguntou o príncipe a sua esposa se não havia reparado na fisionomia serena e altiva do soberano persa.

Ela respondeu:

“Não olhei, absolutamente, para o Rei, nem para os nobres que o  cercavam,  pois tinha  meus olhos fixos naquele que estava disposto a dar-se a si mesmo pela minha liberdade.”

CANFIELD J. e HANSEN M. V. Chicken Soup for the Soul. Florida. Health Comunications, Inc., 1993 Tradução: Agnes G. Milley

sexta-feira, 5 de julho de 2013

EmContando – 41 - Coisas da Idade

Há alguns anos sou velhinha de carteirinha com direito a passe livre nos ônibus. O estranho é que se não houvesse RG e espelho eu não sentiria, como se costuma dizer, o peso dos anos. Muito pelo contrário, os anos não pesam muito, me libertam.

Foram-se as dores de cotovelo, as enxaquecas e muitas outras mazelas da juventude e da vida adulta.  Visto-me com mais liberdade e encontrei bons calçados para acomodar  meu joanete. Passaram também as dores na coluna cervical causadas pelas longas horas curvada sobre provas e trabalhos de meus alunos. Até a tendinite foi embora. Não carrego mais bolsas cheias de livros e  de papéis. Procuro sentar-me  ereta quando escrevo e até um câncer ficou para trás.

Com a graça de Deus, estou um pouco mais organizada, serena e tolerante. Olho para os mais jovens em suas ânsias, tropeços, erros e acertos. Sinto um calor na alma e penso: “Foi assim também comigo. Como sofri! E como devo ter feito outros sofrerem!”

“Ser idosa, então, é bom?” Eu diria  que pode ser bom, assim como poder ser bom ser criança. Depende das circunstâncias e do modo de se ver a vida.

Há algo de surpreendente quando os outros veem a sua idade e você não se dá conta dela. Surpreendo-me, por exemplo, quando me oferecem lugar no ônibus. Não querendo ser indelicada, aceito e agradeço, mas muitas vezes parece-me que aquele que me cede o lugar precisa mais de repouso do que eu.

Outro dia, passei por um grupo de meninas que saía da Escolinha. Eram meninas bem pequenas, acompanhadas por inspetoras,  e dirigiam-se para o orfanato onde vivem. De repente, senti a mãozinha quente de uma delas  segurando a minha. Começamos a conversar enquanto a fila andava. Ela me fez uma porção de perguntas. Lembrando-me de meus tempos de professora, perguntei:

“Pareço uma tia, não?” A resposta veio prontamente:

“Não, você parece uma avó.”

Mais surpreendente ainda foi o que me aconteceu na porta de um banco. Eu levava meus livros dentro de uma  pequena mala. A porta giratória travou. Reclamei. Só havia papel na mala. O guarda tentou justificar-se com argumentos sem pé nem cabeça até que pressionado confessou ter travado a porta e disse:

“A senhora me desculpe, mas  é que o último assalto, aqui,  começou com uma senhora de idade.”

Certa vez, um senhor de mais de oitenta anos de idade descreveu sua velhice assim:

“Sinto que o tempo passa quando olho minha estante e conto os livros que já não terei tempo de  ler.”
Isso me impressionou de verdade, uma vez que   guardo volumes e mais volumes para ler quando eu tiver tempo, e pior, ainda compro livros.

Agora eu tenho um outro problema. Não me basta ler, quero também escrever. Há tantas histórias para contar!

Amigos dizem-me, com sabedoria:

“Tempo se faz.”

Eu tento.