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segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Quatro milagres e um Anjo.

Por Patrícia Peixoto*
Engravidei na lua de mel. Durante a viagem, em Ubatuba, percebi que estava no período fértil, mas confesso que ignorei, afinal, por conta do SOP (Síndrome dos Ovários Policísticos, com a qual fui diagnosticada aos 18 anos), a chance de ter um ciclo sem ovulação era quase 100%. Deus se utilizou disso e eis que a vida nasceu dentro de mim.

Demoramos a descobrir a gravidez. Quando finalmente meu corpo e ações passaram a gritar, ouvimos e fizemos o teste: sim seríamos pais. A confirmação da gestação veio no dia seguinte que soubemos que a empresa americana em que meu marido trabalhava há dois anos iria fechar suas portas no Brasil. Era dezembro, perto do Natal, e em janeiro ele estaria desempregado. Eu, por minha vez, havia trocado Brasília (minha cidade natal) por São Paulo, e também não estava empregada. Ou seja, estávamos grávidos, sem emprego e consequentemente sem plano de saúde.

Nunca havia tido plano de saúde antes, e nem via necessidade - nada como a ilusão da juventude. Fomos atrás de um plano, a reserva dava para pagar apenas um “meia boca”. Estava grávida pela primeira vez, sem ginecologista, sem minha família por perto, minha cabeça girava. Ora ficava feliz com a gestação, em outros momentos não a desejava mais. Nessa montanha russa de emoções, nosso bebê começava a fazer parte da nossa vida.

Eu sentia muitas dores, principalmente nos dias que andava mais, tinha pequenos sangramentos, e, em cada ida ao pronto socorro, sempre ouvia que tudo era normal, que gravidez era assim mesmo. Não tive tontura, enjoos, desejos, indigestões, azia, nada, apenas uma constante dor fina no baixo ventre, e à medida que as semanas se passavam elas aumentavam.

Fizemos todos os exames, de sangue, de urina, ultrassom, inclusive o morfológico, tudo enfim normal, apenas uma constante infecção urinária. No morfológico descobrimos que teríamos um menino - o pai ficou todo orgulhoso, o amigo e companheiro de estádio estava a caminho, a ele ensinaria a importância do alambrado, do fechar junto com o time na hora do jogo independente do que se desenrolava no campo. O primeiro nome ainda não estava escolhido, mas o segundo sim: seria César como ele e como o seu pai.

Janeiro e Fevereiro foram bem conturbados, as dores sempre aumentando e todos sempre me dizendo que era normal: sabe como é, grávidas exageram. Minha irmã viria passar alguns dias comigo, meu cunhado tinha um curso a fazer em São Paulo e ela aproveitou para passar 3 dias por aqui, chegou na 6ª e no sábado fizemos turismo no Centro de São Paulo. Quando chegamos em casa, fui descansar, a dor estava aumentando. Ao acordar, fui ao banheiro e descobri que estava sangrando e entrei em pânico. Eu, Rogério, minha irmã e meu cunhado no Pronto-Socorro, não era mesmo a noite planejada para o sábado.

Quando lá cheguei, o primeiro exame foi o do coração do bebe, que estava batendo forte, como deveria ser. Respiramos aliviados, a médica fez o exame de toque e percebeu que estava com 7 cm de dilatação. Com apenas 24 semanas de gestação, parte da placenta estava para fora do útero. Foi ali que o pesadelo - o maior dos pesadelos que os pais podem passar - começou a se delinear.  A médica, novinha, ficou desesperada: acreditava que eu teria o bebe aquela noite. Levaram-me para a enfermaria. Milhões de coisas passaram pela minha cabeça, principalmente os momentos em que questionei a maternidade junto a Deus, seria castigo? Foi uma noite longa e cheia de dores. Quando acordei pela manhã, pensei: ele continua aqui dentro, será que Deus irá mantê-lo, será que foi só um grande susto?

No domingo, passei por vários médicos, enfermeiros e auxiliares. Tinha a impressão que não sabiam o que estava acontecendo comigo. Não estava em trabalho de parto... de onde saiu aquela dilatação toda? Segunda à noite me encaminharam para o quarto e quando lá cheguei, tive a certeza que o susto havia passado, seria só esperar. Pura ilusão.

Amanheci na segunda com dores constantes e espaçadas, o trabalho de parto havia começado. As contrações foram ficando mais frequentes, e à noite aconteciam de 5 em 5 minutos. Às 5 da manhã a bolsa rompeu, e me levaram para uma enfermaria, com as dores cada vez mais fortes... e fiquei lá sozinha, nenhum médico veio me ver. Quando senti o pequeno coroando, chamei a auxiliar e informei. E ela disse que era impressão minha, mas mesmo assim eu pedi para olhar e ela o fez, displicentemente. E vejam: eu tinha razão. Foi um tal de aparecer todo tipo de gente na sala... e quando perceberam, Anderson nasceu, sozinho, e sem nenhum amparo, pedi para não vê-lo, reneguei-o ao nascer, tinha medo da dor que seria tê-lo nos braços e depois não mais.

Rogério, foi mais corajoso, além de vê-lo, fez o que de mais importante um pai pode fazer por seu filho, ministrou-lhe o batismo - e assim Anderson nasceu para ambas as vidas: a natural e a sobrenatural. A primeira durou 30 minutos, ele não teve qualquer atendimento, e a segunda durará a eternidade. Demos o mais importante, cumprimos com ele plenamente a nossa obrigação de levar os nossos pequenos a Deus.

Entrei no hospital grávida e sai mãe, mas não havia levado comigo meu filho. Não foi fácil para nós – meu marido e eu - aceitarmos essa vontade de Deus, levamos algum tempo para tal, contudo Deus nos esperou pacientemente.

Mais tarde, descobri ter incompetência do colo uterino e nas gestações seguintes, sempre de alto risco, foram tomadas as providências necessárias. Hoje são quatro milagres conosco: Catarina(7), Eduardo(6), João(1,9 meses) e Álvaro(5 meses).

A vida com eles é uma loucura total: nos divertimos, nos cansamos, vivemos e convivemos. A casa é sempre barulhenta, nada é tranquilo, uma ida ao supermercado é uma verdadeira aventura. Eles riem, choram, se batem, se cuidam, se preocupam, se amam intensamente e sentem ciúmes um do outro. O colo ficou pequeno, o tempo pessoal ficou perdido em algum lugar no passado. Agora é hora de estar e viver com eles, no futuro procurarão seguir seus caminhos, e esperamos dar todas as ferramentas para que sejam santos e irrepreensíveis diante de Deus e dos homens.

Contudo, a dor que senti me acompanha até hoje, ainda que mais cálida, sem rompantes e choros convulsivos. Há uma saudade de tudo que poderia ter sido, das alegrias e das tristezas que não foram vividas. Hoje temos um companheiro ao lado de Deus, e o que nos consola é saber que esse é o único dos cinco que temos a certeza que viverá eternamente na graça: Anderson César.

*Patrícia Peixoto, Filha de Deus, Católica, Esposa, Mãe, Mulher... nessa ordem de prioridade.

7 comentários:

Pat disse...

Sem palavras!!!! Só admiração pelo AMOR DE DEUS que estava DENTRO DA ALMA dessa linda FAMÍLIA!

Ainda estou emocionada com seu relato, Patrícia, e por isso, a falta de mais palavras...e olhe que, eu estar sem palavras é um "acontecido"! Praticamente impossível, rs rs rs

Todo meu carinho e admiração! Obrigada por compartilhar conosco essa "aventura de AMOR"!
Patricia Carol

Luciana Cassimiro Nóbrega disse...

Trícia, te admiro ainda mais depois de ter lido este relato!
Mulher, mãe, esposa, filha e amiga na fé!
Que Deus abençoe você e sua linda família!!!
Bjs,

Luciana Nóbrega

Raquel Suppi disse...

Que partilha linda e emocionante! Deus os abençoe sempre mais! Vcs são especiais! Chorando mto....

Maite Tosta disse...

Uma partilha que muito me emocionou. Obrigada por dividir conosco esse relato! Deus os abençoe!

Jaqueline Melo disse...

Sem palavras... Deus abençoe vc e seus milagres Patricia! 😭😭😭😭😭

Liana Clara disse...

Emocionante! Típico de uma verdadeira filha de Deus. Só tenho que agradecer por essa excelente contribuição que você nos deu.

lilia lino disse...

Patricia, faz um bom tempo que não nos vemos e me emocionei ao ler um pouco da sua história. Você com certeza tem uma família linda!!!! Que Deus abençoe a você e sua família! Um grande abraço!

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