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quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Meu estranho favorito


Quando a gente segue uma certa rotina diária, muitas coisas começam a ganhar um ar de familiaridade. Por exemplo: as pessoas que cruzam por nós no cooper; a senhora que está sempre escolhendo legumes quando vamos ao supermercado; o jovem vendendo jornal no sinal etc. Mesmo sem sequer saber seus nomes, eles não são completos desconhecidos para nós. A presença deles, em seus contextos, traz um certo conforto do tipo “não estou sozinho”. Provavelmente, se nos encontrássemos em outro ambiente, nós os cumprimentaríamos com entusiasmo, ainda que não tivéssemos certeza de quem são.

Antes da caçula nascer, eu costumava levar os nossos outros dois filhos ao colégio. Procurava sair sempre no mesmo horário, para não pegar trânsito e as crianças acabarem se atrasando. Além do relógio, outras coisas nos indicavam se estávamos dentro da hora. Tais como: a criança fardada, na calçada de sua casa, esperando o transporte escolar – eu imagino; o simpático senhor em sua bicicleta, provavelmente indo ao trabalho; a moça passeando com os seus dois poodles, na praça; o atleta em sua lycra correndo na ciclovia... Com pouca variação, era essa cena – nada estática – que encontrávamos todas as manhãs, no caminho da escola.

Entre todos os “estranhos conhecidos”, dois eram os meus preferidos e chamavam a minha atenção de modo especial! Mesmo sem conhecê-los de verdade e de jamais termos conversado, ambos me serviam de inspiração e, em certos momentos, de consolo. Era um belo casal de idosos, de cabeças branquinhas, aparentando os seus setenta e poucos anos. Todo dia, de segunda a sexta, eles caminhavam felizes, lado a lado, contornando o parque. A primeira vez que os notei, eu estava apreensiva. Era o primeiro dia de aula do nosso primogênito, na nova escola, e sabia que não seria fácil para ele – tampouco para mim. Partia o meu coração precisar deixá-lo passar por isso sozinho, e não poder estar sempre presente. Enquanto pensava nisso, avistei os lindos e velhos companheiros. 
No momento em que os vi, pensei nas perdas e nos desafios que eles já deviam ter enfrentado na vida. Mesmo assim, estavam lá: alegres, seguindo em frente juntos! Percebi que a senhora levava um terço na mão. De fato, é preciso força de vontade, mas, acima de tudo, fé, para encarar as adversidades que surgem. Olhar para eles me deu esperança! Desde então, passei a admirá-los.

Uma vez, vi na TV um médico falando dos perigos da automedicação. Alguns tratavam de uma dor na garganta como se fosse uma amigdalite. Ou de um resfriado como se fosse pneumonia. Ele se referia à saúde, mas poderíamos comparar o exemplo com os acontecimentos da vida. Muitas vezes, damos importância e fazemos um drama enorme com algo que poderia ser encarado como um simples “resfriado”. Com o tempo, a gente vai aprendendo!

Chegou o mês de julho, com as férias e, logo depois, agosto, com a volta às aulas. E lá estava eu, com um nó na garganta de novo, a caminho do colégio! Foi quando lembrei-me do simpático casal. 
Ansiosa para revê-los, tomei um choque por encontrar o senhor caminhando sozinho. As lágrimas caíram silenciosas e quase que instantaneamente. Mas tentei me convencer de que a senhora estava apenas indisposta. Podia ser somente um “resfriado”. No entanto, os dias se passaram e nada mudou: ela continuava sem aparecer, confirmando o que eu temia. Era muito triste vê-lo solitário. Então, depois de lamentar muito, dei-me conta que, apesar de tudo, ele continuava lá: de pé, lutando para continuar. E parecia estar se saindo bem! Deixei de sentir pena e passei a admirá-lo ainda mais. 
Procurando encarar o lado bom das coisas, adaptei-me novamente à rotina, e a ida ao colégio voltou a ter a alegria de antes!

Até que, dias depois, em uma belíssima manhã de setembro, fui surpreendida de novo! O admirável senhor não estava sozinho, em sua caminhada! Ao seu lado, ia a sua adorável senhora! Sim! Deve ter sido apenas um resfriado.

3 comentários:

Jaqueline Melo disse...

Aí q bom! Já estava chorando aqui em saber q ela tinha morrido! Q linda história Raquel! Muitas vezes a gente engrandece demais as coisas e os problemas né? Parabéns pelo texto querida!

Pat disse...

Muuuuuuuuuuuito linda essa estória dos velhinhos. Lembro que quando meu pai faleceu, muitas pessoas das redondezas se aproximavam e perguntavam à minha mãe, como ela estava. Muito serena, embora parecendo um palito de tão magrinha naquela ocasião pós doença do marido, ...ela sempre respondia: "estou bem agora que ele parou de sofrer e foi pro Céu. Pena que ele não foi um mês antes, pra poder não ter sofrido tanto tempo..." as pessoas se espantavam, à primeira vista, pensando que ela não estava bem, dizendo que preferia que o marido tivesse morrido antes...mas, o que acontecia, é que nos últimos 2 meses após uma cirurgia de coluna, ELE só conseguia ficar dormindo e acordando de 10 em 10 minutos. Então um dia ela teve a ideia de sugerir a ele que dormisse SENTADO na beira da cama de um lado, enquanto ela dormia do outro lado da cama, SENTADA com as costas dela apoiando as costas dele...Então, ele sentindo a sua presença cochilando bem juntinho dele, começou a conseguir dormir direto umas 2 horas de cada vez antes de acordar todas as noites.

Daí, o corpinho dela foi emagrecendo bastante pelos 2 MESES em que ela não dormia quase, só pra ele poder cochilar com mais conforto.

Graças a Deus pelos pais que tive como EXEMPLO DE CARIDADE!
Abraço apertado a todas,
Pat
Ah! Já comecei a ORAÇÃO PARA BLOG e incluindo todas vocês!

Evelyn Mayer de Almeida disse...

Gente, eu tb tava chorando! :D

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