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terça-feira, 26 de agosto de 2014

A vida que sonhei

Por Raquel Suppi*

Há alguns anos, quando estava na faculdade, um dos professores passou uma atividade interessante: escrever uma carta endereçada a nós mesmos, no passado. Mergulhei fundo na imaginação e desenvolvi um texto que seria lido por mim, aos sete anos, contando como estava a nossa vida. Tentei me lembrar dos sonhos, idealizações e projeções que fazia do futuro, na época de criança. E me perguntei: será que me tornei a pessoa que eu imaginava e gostaria de ser?

Na época, eu estava na metade do curso de Jornalismo e namorava o meu esposo. Estávamos apaixonados e já falávamos em casamento. A princípio, iríamos esperar a graduação e, assim, melhorar a nossa situação financeira, para darmos esse passo. Meu então futuro marido já trabalhava em sua área (Tecnologia), mas não tinha um bom salário - pelo menos não um que pudesse nos sustentar e pagar os estudos, ao mesmo tempo. Eu também tinha um trabalho que não pagava bem, e nada ligado ao meu campo (Comunicação Social). No entanto, havia conseguido vaga, após longa seleção, em dois ótimos estágios. Seriam grandes oportunidades de ingressar e engrenar no ramo com o qual eu tanto me identificava. Em um deles, eu iria fazer a cobertura de um evento que aconteceria em outubro daquele ano, na minha cidade. O outro, mais duradouro, eu seria repórter de um novo jornal, que ainda era um projeto que precisava da aprovação do governo. Enquanto esperávamos a concretização de tudo, aos poucos, a vida foi tomando outro – maravilhoso – rumo.

Percebemos que havia chegado o momento oportuno! Estávamos prontos! Decidimos, então, alterar o nosso planejamento prévio! Antecipamos o casamento, interrompemos os estudos e fomos morar um tempo em missão, fora do país. Sempre quisemos viver uma experiência no exterior, e agora o faríamos como casal, como uma família missionária! A oportunidade surgiu, nós interpretamos como um grande sinal de Deus, e a abraçamos juntos! Não conseguimos continuar os estudos lá, como tínhamos em mente, mas, em compensação, os três anos vividos no Uruguai foram uma grande escola: superaram as nossas expectativas, em todos os aspectos! Aprendemos, crescemos e amadurecemos muito, principalmente como família! Voltamos ao Brasil tendo no colo um filho e, na cabeça e no peito, muita gratidão, recordações, ensinamentos. Recomeçamos a nossa vida aqui, devagarzinho. Após um tempo, retomamos os estudos e concluímos o Nível Superior. Alargamos o coração e a família! Demos um passo de cada vez, até chegarmos onde estamos agora. Um caminho que envolve instantes de dores e uma felicidade eterna! A caminhada não para, continua até o fim!

Esses dias, voltei a pensar sobre a questão: sou quem eu sonhava ser? Se “eu pequena” entrasse numa cápsula do tempo e fosse transportada para a atualidade, ficaria contente ou decepcionada com o que encontraria? Embora a resposta não faça nenhuma diferença, pois não imagino outra vida para mim, acredito que “eu mais nova” ficaria muito feliz com o que veria. Sempre desejei, antes de qualquer outra coisa, casar com um homem maravilhoso e formar uma linda família. Foi o que aconteceu! 
Talvez alguns outros detalhes tenham saído um pouco diferentes, mas, provavelmente, nem ligaria para isso! Trabalhar em casa – escrevendo – e poder me dedicar aos filhos e esposo com tanta prioridade, certamente me surpreenderia positivamente. Só não estou muito certa quanto ao que acharia da minha aparência! Mas, levando em conta que passei, há apenas três meses, pela terceira cesárea, até acho que estou bem. De todo modo, é um alívio saber que não passarei pelo meu próprio e tão sincero “crivo de criança”!

Uma vez nos perguntaram se, caso soubéssemos as dificuldades que iríamos enfrentar, ainda assim faríamos as mesmas escolhas. “Claro que sim”, respondemos sem pestanejar! Todo caminho esconde, com mais ou menos intensidade, desafios e sofrimentos. Devemos saber lidar com eles, aprender e crescer para colher os frutos - bons frutos. Não sei – nunca saberei e não faço questão de saber – se outras decisões seriam mais fáceis ou melhores. Muito menos, se me trariam a este momento. O que sei é que repetiria tudo – TU-DO! – outra vez. 

Que coisa boa olhar em nossa volta e sentir orgulho, satisfação. Independente de termos ou não atingido todos os objetivos um dia traçados, conseguir valorizar o que alcançamos. Mais ainda, quem temos e com quem estamos.  Alguns insistem, por puro apego ou teimosia, em projetos que não deram certo, e ficam presos em frustrações passadas, quando, na verdade, deveríamos empenhar esforço para fazer feliz quem amamos, e lutar diariamente, sem jamais desistir desse propósito! 
Escolher o que realmente vale a pena! Escolher a gratidão pelo muito que nos foi dado! Escolher desfrutar, plenamente, o que a vida nos dá agora, com os nossos queridos, com a nossa família – nossa maior conquista! Porque o hoje e, principalmente, quem está ao nosso lado, é o nosso grande presente!

*Raquel Suppi - é bacharel em Jornalismo, escritora, blogueira e dona de casa em Fortaleza/CE. Casada com um gaúcho e mãe de dois príncipes e uma princesinha, é Católica e membro da Comunidade Católica Shalom. Gosta de tomar chimarrão com o esposo, brincar com os filhos, ler, escrever, ver filme e viajar em família.

Um comentário:

Jaqueline Melo disse...

Pocha Raquel, fiquei emocionada com seu texto! Chorei aqui ao ler como a vida toma rumos diferentes dos que nós traçamos e como consegue ficar muito melhor do que imaginávamos que seria! Deus é maravilhoso mesmo! Ele tem planos muito melhores que os nossos e sempre nos surpreende com algo de melhor do que poderíamos prever! Deus abençoe sua família e todo esse seu amor por ela!

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