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sábado, 9 de agosto de 2014

Meu dia dos pais com saudade

Por Evelyn Mayer*

Assim como eu, muitos filhos passarão esse Dia dos Pais sem o pai presente. O motivo da ausência é o mais doloroso e “impenetrável” possível: a morte. Ficou apenas o mistério e a saudade.

Mas o bom são as lembranças, a memória que nossos pais imprimiram em nós. Eu mesma adoro recordar o tempo em que eu tinha a idade do meu filho e esperava meu pai chegar em casa para correr em sua direção. Nem me importava com o fato de ele estar todo sujo (era metalúrgico)! Enchia-o de beijos e perguntava como tinha sido o seu dia até a hora em que ele me mandava parar de “importuná-lo” com tanta melação.

Só que a infância passou e veio a ‘Dona Adolescência’ com todas as suas manias de saber, fazendo com que a nossa relação se tornasse insuportável. Meu pai era alcoólatra e muito agressivo comigo e com meu irmão. Demorou muito para eu entender que não tinha culpa, mas que devia amá-lo como ele ERA, e não como eu QUERIA QUE ELE FOSSE.

O dia em que “a minha ficha caiu” foi num retiro para adolescentes. Um moço que dava a palestra testemunhou que ficou a vida toda ensaiando como dizer ao pai que o amava. Quando se encheu de coragem, o pai faleceu. Aquilo me marcou a ponto de me fazer tomar uma iniciativa: peguei o telefone e liguei para o meu pai. Entre lágrimas, disse que o amava profundamente, que o perdoava por todo o mal que me havia feito e pedia perdão por todos os meus erros. Ele só chorava do outro lado. Foi a primeira e única vez que conseguimos dizer verdadeiramente o quanto éramos importantes um para o outro.

De lá em diante comecei a enxergar meu pai de maneira diferente. Passei a ter um carinho especial por ele. Passei a amar meu pai real, não aquele que eu queria que existisse. Adorava vê-lo alegre com o meu filho! Era um avô e tanto!

Porém, um dia, chegou o dia em que meu pai “entraria na vida” (cf. Sta Terezinha do Menino Jesus). Esse dia foi primeiro de maio de dois mil e onze. Era dia do trabalhador, dia em que o Papa João Paulo II fora beatificado, Domingo da Festa da Divina Misericórdia. Levou-o como a um pássaro. Foi!

Diante do corpo do meu pai, eu só pensava em uma única coisa: como eu queria tê-lo amado mais! Como eu queria tê-lo beijado mais, abraçado mais, perdoado mais, tido mais paciência, sido mais dócil... Se eu pudesse ter mais um Dia dos Pais com ele adoraria dizer o quanto amava aqueles olhos azuis tão profundos, que sua timidez me fascinava e que adorava sua mão pesada me fazendo cafuné.  Mas não posso mais voltar atrás. Também não adianta me lamentar. Resta apenas continuar amando. E é assim que eu sigo: amando o meu pai e curtindo a saudade. Lembrando de suas palavras, de seus conselhos, de seus sorrisos e suas bravezas. Amando-o pelo que foi: meu pai! O melhor que poderia ter!

Que Deus receba em Sua Misericórdia todos os pais que já partiram.

Foto: Osvaldo Janine Mayer. * 16/07/1941 - + 01/05/2011

*Evelyn Mayer - é católica, consagrada à Virgem Maria, casada, mãe, professora de Língua Portuguesa e palestrante de recursos humanos em indústrias da cidade de Londrina.

Um comentário:

Jaqueline Melo disse...

Que linda história Evelyn! Me emocionei querida! Nós que ainda temos os pais vivos não podemos ter vergonha ou timidez de declarar e de demonstrar o amor que sentimos pelos nossos pais, ainda que não tenhamos mais toda aquela admiração infantil e suas imagens não sejam mais imaculadas como imaginávamos! Texto lindo, parabéns!

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