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sexta-feira, 13 de março de 2015

Para assistir no cinema - Sniper Americano

 Por Patricia Carol Dwyer

Aproveitei da VEJA esse ótimo resumo feito por Miguel Barbieri Jr. do filme "Sniper Americano".

Clint Eastwood, 84 anos, um veterano à frente e atrás das câmeras, faz um registro seco para enfocar as feridas da guerra no cotidiano de Chris Kyle, (papel de Bradley Cooper). Deixa para os créditos finais, o sentimentalismo genuíno, acompanhando as imagens reais do biografado, um atirador de elite, responsável por matar 160 pessoas, (confirmadas) em nome da defesa de militares americanos e civis iraquianos. Partindo da infância do protagonista, a história concentra-se em sua fase adulta, passando pelo casamento com Taya, (Sienna Miller), pelos treinamentos militares e, sobretudo, pelas operações no Iraque, após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001. Eastwood afasta-se da "patriotada" e dos julgamentos morais para ir fundo nos dilemas de um homem a serviço de uma nação. Ignorado no Globo de Ouro, o longa surpreendeu na corrida do Oscar, concorrendo ao melhor filme, ator(Cooper), roteiro adaptado, montagem, mixagem de som e edição de som. Direção: Clint Eastwood.

Achei formidável, e recomendo especialmente, se levarmos em conta os exemplos de coragem, lealdade aos amigos e à Pátria, e a força do desapego ao trabalho para se dedicar mais à família.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

EmContando - 45 - Retratos de Infância (memórias)

Esta história são fragmentos de lembranças de um passado distante. São como retratos num álbum de fotografias, uma coleção de cenas congeladas no tempo. Mamãe, minha irmã de dois anos de idade e eu caminhávamos, com pressa, por um largo corredor branco de um hospital infantil. Não sei se nos foi dito por que e para que estávamos lá. Eu só pensava em mim. Crianças pequenas só pensam em si. Nem mais tarde ocorreu-me refletir sobre os sentimentos ou aflições de minha mãe. Na cena seguinte ela já não estava lá.

Haviam nos colocado, em pequenos berços, numa enfermaria de quatro leitos. A sala era muito grande, e o teto, muito alto. As três gigantescas janelas  deixavam passar a claridade e o verde do parque. Aquele hospital em tudo se parecia com as Santas Casas que eu conheci mais tarde.

Meu berço era o primeiro, perto de uma das janelas. Junto ao meu, ficava o de minha irmã. O seguinte estava vazio, e no último, gemia e chorava uma menina     talvez  do  meu tamanho. Seus braços e pernas ficavam amarrados às grades do berço. Tinha queimaduras por todo o corpo. Ela era só.O tempo todo só. Ninguém parecia importar-se com sua dor, muito menos com a sua solidão. Eu era covarde. Seu sofrimento me assustava. Em nenhum momento   tive coragem  de chegar perto de seu berço. Ela me dava medo. Será que as enfermeiras também a temiam? Por que ela causava tanta repulsa? Seu choro e seus gritos me torturavam. Ela tinha sede. Sede de água e de alguém.
Um dia, chamaram eu nome. Depois, lembro-me de estar numa sala ainda maior que a enfermaria. Dois  homens, grandes também, falavam comigo, mas eu não os entendia. Aliás, eu não entendia nada e não sei se tudo era realmente tão grande ou se eu que me sentia muito pequena, indefesa. Colocaram-me no rosto um pano embebido de uma substância de cheiro muito forte e contaram comigo: ein, zwei, drei, até seis, e aí eu adormeci.

Haviam me operado a garganta. Sentia dor, mas não muita. Minha irmã não estava no berço. Era a sua vez. Mas ela não sabia falar, como a fariam contar? Naquela hora pensei nela, não em mim. A menina no canto continuava a  chorar. Não sei quando ela dormia.

Deram-nos algo gelado pra comer Eu gostei, talvez fosse sorvete. Minha irmã só chorava. Agora eram duas a me afligir. Eu não podia fazer nada pela  menina do canto, mas por minha irmã eu podia. Toda vez que a enfermeira saía do quarto, eu saía do berço, pegava Kati no colo e a punha no  meu berço. Abraçadas, aproveitávamos cada instante da ausência da gigantesca bruxa, que ao voltar vociferava: “ Nein, nein, nein...” e, sem dó, jogava minha irmãzinha de volta no seu berço. A gritaria recomeçava. Essa passou a ser nossa rotina todos os dias e todas as noites. Eu pouco me importava com a fúria e a insensatez daquela que mais me parecia ter saído de um livro de histórias. A diferença é que vestia branco, e não preto.

À tarde, quando o sol se afastava e começava a escurecer, a enfermeira largava sua vassoura de bruxa e pegava um grosso livro de histórias. Em pé, a alguns  passos de meu berço, ela lia, em alemão. Eu não entendia nada do que ela dizia, mas naquela hora eu a perdoava. Quem sabe, se falássemos  a mesma língua talvez até nos entendêssemos.

Assim se passaram muitos dias. Eu me sentia bem, mas a garganta de Kati ainda sangrava, de tanto ela chorar. Um dia vi o rosto de mamãe na janelinha da porta. Ela gesticulava. Sabia que tinha alguma coisa importante para me dizer, mas ela não podia entrar. Era proibido! Por fim, a bruxa, que agora era fada, me trouxe um bilhete. Consegui ler, com alguma dificuldade, e lembro que respondi, mas não sei o que disse, nem se mamãe entendeu o que eu escrevi. Eu tinha seis anos de idade e a única língua que eu conhecia na época era a minha língua materna, o húngaro. De alemão, eu sabia pouco mais do que “ja” e “nein”.

Eram anos difíceis. Pós-guerra, 1946. Escombros, destruição, insegurança, fome, ratos, medo, desalento e muito cansaço. Felizmente, em alguns corações, ainda sobrava um pouco de solidariedade e de esperança.

Após duas semanas , fomos liberadas do hospital. Esperávamos por mamãe. Não sei se Kati entendia, mas ela já não chorava tanto. Não sei o que aconteceu com a menina do canto. Nunca a esqueci. Nós saímos, e ela ficou.

Deitada em meu berço, eu olhava com prazer o verde do parque, e chorei. Pela primeira vez eu chorei, mas não de alegria por voltar para casa. Nosso lar não era tão doce quanto eu desejava que fosse. As dificuldades eram muitas e, naqueles dias, meus pais pouco se entendiam. Lutavam contra muitos monstros, os seus e os de fora. O conto de fadas ainda não chegara ao fim. Eu sonhava com o dia em  que eu pudesse dizer:  “....  e foram felizes para sempre!”

                                Agnes G. Milley

sexta-feira, 24 de maio de 2013

EmContando – 35 -Memórias (continuação)


Depois da Festa

 Acabada a festa; a alegria pelo fim da guerra, os habitantes do galpão começaram a dispersar-se. Saíam cedo, todas as manhãs, a procura de abrigo mais confortável em casa de famílias alemãs.

As cidades haviam sido duramente bombardeadas e poucos prédios escaparam da destruição. Nas aldeias e nos campos  a situação era bem melhor. Famílias que possuíam casas espaçosas cediam um ou dois quartos para refugiados estrangeiros. Não sei se essas
pessoas  recebiam algum benefício das autoridades ou se os inquilinos tinham que pagar pela moradia. Vivia-se de escambo. Trocava-se tudo por qualquer coisa. O dinheiro, se existia, não tinha valor algum. Anyi (mamãe) ainda tinha cigarros que comprara antes de sairmos da Hungria. Essa sua valiosa moeda ainda durou por algum tempo, mas era insuficiente para pagar aluguel. Com os cigarros ela comprava itens essenciais para nossa subsistência. Não sei com ela se arranjaria. Coragem e audácia nunca lhe faltaram. Ela encontraria, com certeza, uma solução se achasse um lugar adequado para nós.

Nossos companheiros do galpão tinham mais facilidade para se locomover. Entre eles não havia crianças pequenas e em quase todas as famílias havia um avô ainda ativo  ou um adolescente forte. Anyi estava sozinha e nós éramos muito pequenas. Kati ainda não completara um ano de idade. Além disso, poucas pessoas eram verdadeiramente soldarias naqueles dias. Sobreviver, chegar primeiro, abocanhar o melhor pedaço era, normalmente,  a regra do jogo.

Uma das senhoras que sofrera as agruras do galpão conosco, mostrou-se amiga
. Encaminhou Anyi a uma aldeia próxima, dizendo que havia encontrado ali um quarto de bom tamanho, claro e arejado. Seria uma boa moradia para nós quatro. A proprietária era amável e a casa ficava perto da estação de trem, o que era muito conveniente. Ela só não contou por que a casa não servira para ela.

Anyi arrumou-nos o melhor que pode e fomos, as quatro, conhecer nosso futuro lar.  Estávamos alegres, saltitantes, buliçosas e cheias de esperanças. Anyi já pensava nas cortinas coloridas e nos gerânios na janela. A proprietária além de amável era, felizmente, honesta também. Explicou-nos que o quarto era bom, de fato, mas não poderia acolher-nos. O lugar era infestado de ratazanas. Kati era um bebê ainda, Zsuzsi e eu também éramos pequenas. Morar ali seria muito perigoso. Ela não dormiria em paz.

Voltamos para o galpão. Nenhuma das tentativas de Anyi foram bem sucedidas. Sempre chegávamos atrasadas. O quarto não estava mais disponível.

Todos se foram. Estávamos sozinhas na fazenda; nós e Frau Helga (a fazendeira). Anyi chorou. Deve  ter se sentido muito só, desanimada e impotente. Frau Helga não nos queria mais lá. Éramos um estorvo. Anyi não tinha a quem pedir ajuda a não ser que a própria Frau Helga lhe desse a mão. E foi o que aconteceu. Anyi conseguiu convencê-la de que era forte e saberia trabalhar bem em troca de um pequeno quarto na casa e comida para três. Kati ainda mamava no peito.

Começava, assim, um novo capítulo de nossa história. Anyi trabalhava o dia todo. Limpava, descascava batatas e, principalmente, batia o leite até virar manteiga. Frau Helga produzia muita manteiga. Provavelmente, era seu item de escambo. Nós, meninas, cuidávamos de nós mesmas e umas das outras. Ocasionalmente ganhávamos um dia de folga para que Anyi pudesse continuar a procurar uma saída melhor para nós.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Sugestão de Leitura: Sobrevivi para contar - Immaculée Ilibagiza

Definitivamente esse é um dos livros mais marcantes que eu já li até hoje.

Ele é a narração da história de Immaculée Ilibagiza, uma sobrevivente do genocídio de Ruanda, onde mais de um milhão de pessoas, a maioria da etnia Tutsi, foi brutalmente assassinada num conflito de tribos que durou pouco mais de 100 dias.

O livro não se propõe a ser um relato completo do genocídio. Ele é a história de Immaculée e de como ela consegui escapar da carnificina, escondendo-se por 91 dias num minúsculo banheiro de 1,2m x 0,9m, juntamente com mais 7 mulheres. Mais do que o relato de uma sobrevivente, o livro é a descrição do crescimento da fé de Immaculée e como essa sua fé a salvou do massacre que dizimou centenas de milhares de pessoas.

Apesar de ser um livro denso e de descrever várias cenas terríveis do holocausto de Ruanda, é quase impossível parar de ler "Sobrevivi para contar". Aliás, a palavra "impossível" não combina com Ilibagiza. No meio de tantas desgraças, o leitor se surpreenderá com os milagres que a sua imensa fé conseguiu. Além disso, o seu amor por sua família e por Deus é muito bem retratado nessas páginas. Perdão é outra palavra que aprendemos neste livro de forma gráfica.
Você não será o mesmo depois de ler "Sobrevivi para contar".

O livro é relativamente barato (achei esses preços na internet).

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Pátria proíbida - A história dos meninos perdidos do Sudão



Pátria proibida (89 minutos, ano 2006), melhor em seu título original God grew tired of us (Deus se cansou de nós) narra a história de alguns garotos que escaparam dos massacres da guerra civil sudanesa, da fome nos campos de refugiados e foram levados aos EUA para recomeçar a vida.
Focado em acompanhar durante cinco anos dois jovens que foram viver em Pittsburgh e um que foi viver em Syracuse,NY; pátria proibida mostra de maneira simpática o choque cultural que implica conhecer interruptor de luz, geladeira, vaso sanitário, papel higiênico e mostra de maneira dura o horror de uma guerra civil genocida que busca exterminar os cristãos do Sudão.


É um documentário que deveria ser assistido por todos os adolescentes, para que vejam jovens iguais a eles que foram extremamente fortes e alegres ao enfrentar as adversidades. Jovens que questionam o individualismo da sociedade ocidental e que trabalham duro nos EUA para enviar recursos a seus colegas que vivem no Sudão.


Chama a atenção ver que o governo Lula nunca teve uma palavra de repúdio ao ditador sanguinário e genocida do Sudão Omar Bashir, e ainda encontrou no Sudão um grande parceiro comercial. Citando um trecho do jornal o Estado de São Paulo: "O ponto alto desse vexame se deu no final de 2007, quando o Brasil, no Conselho de Direitos Humanos, se absteve de votar uma resolução que exigia o julgamento dos sudaneses responsáveis pelo massacre em Darfur"