Por Maitê Tosta
Há quase dezessete anos atrás, eu tive um filho homem. Como toda mãe de menino, vesti meu príncipe de azul, comprei carrinhos, figuras de ação, videogames, bonés, Pokemon Cards... tudo aquilo que meninos gostam. Sonhei e ao mesmo tempo tive medo do dia em que ele me apresentaria a mulher que ia concorrer comigo pelo seu coração, o dia em que eu me tornaria a número 2. Sonhei em vê-lo se formar, médico, engenheiro, advogado, ou seja lá qual fosse a sua vocação.
Preparei-me para enfrentar todas as dificuldades que vêm de ter um filho, preparei-me para vê-lo adoecer algumas vezes, para acompanhar seu desenvolvimento escolar, para discipliná-lo, para os desencontros e conflitos da adolescência. Mas eu confesso que nunca me preparei para ouvir dele o que ouvi: "mãe, eu sou gay". Dito assim, curto, claro, sem rodeios (vê-se bem que ele tem a quem puxar).
Depois de aguardar alguns segundos com a esperança de que ele dissesse: "mentira, mãe, to zuando", o que não aconteceu, e, constatando pelo olhar nervoso dele, aguardando o que eu diria em seguida, que o assunto era, sim, bem sério, achei força para falar: afirmei a ele que nada mudava, que ele continuava a ser o meu filho muito amado. Depois, como toda mãe, quis fazer perguntas: como ele concluiu que era gay, desde quando sabia, se já tinha tido alguma experiência ou relacionamento, etc etc. No fim, ele estava aliviado, e eu fui deixada para lidar com essa nova realidade.
Se a princípio, meu mundo caiu, hoje ele segue em pé, embora numa corda bamba: estou sempre procurando maneiras de demonstrar o grande amor que tenho pelo meu filhote sem, contudo, dar aprovação para o que não posso aprovar.
Passei por um período bem triste, tentando descobrir onde eu teria errado, o que eu teria negligenciado, para que isso acontecesse... tantas perguntas... "onde errei?" "será que foi por eu ter uma personalidade forte?", "será que foi por que...??". Conforme os familiares iam sabendo, alguns também questionaram. Mãe já se culpa por tudo... imagina então como me senti, pensando que meu comportamento, jeito de ser ou atitude pudessem ter influenciado meu filho... hoje parei de ficar procurando "causas". Nem a ciência ainda deu conta de explicar o homossexualismo: alguns estudiosos falam em genética, outros em questões comportamentais... não seria eu a fechar essa questão.
O que penso é que algumas pessoas são assim, e embora eu não entenda o porquê, elas merecem igualmente o meu amor, o meu respeito. Eu posso não concordar com seu estilo de vida - assim como, por ser católica, não acho correto um casal fazer sexo antes do casamento - mas assim como não me meto na vida dos meus conhecidos que escolhem viver maritalmente sem casar, ou viver um "namoro avançado", eu também não me meto na vida dos meus conhecidos gays que têm namorados ou companheiros. Ainda assim, em ambos os casos, mantenho a estima e reconheço as qualidades que eles têm. Obviamente, os meus amigos mais próximos são os que pensam como eu, têm a mesma fé, temos afinidade. Espero deles que mantenham o respeito e carinho que sempre tiveram com o meu filho.
Algumas coisas eu começo a compreender melhor: meu filho é o mesmo rapaz doce, inteligente, questionador e bondoso de sempre - isso não mudou! Ser sincera é o melhor caminho. Ele sabe o que penso, sabe no que acredito, sabe os meus limites. Eu tento sempre manter o canal de comunicação aberto, dialogar, ouvir, mesmo aquilo que é difícil ouvir do seu próprio filho.
Por outro lado, coloco limites, pois tenho filhas pequenas que ainda estão em formação. Limites, na verdade, precisam existir em qualquer casa, independente da orientação sexual dos filhos, não é mesmo? E com ele não será diferente. Até então ele tem respeitado os limites que eu e o pai temos fixado, com umas tentativas aqui e ali de transgressão, típicas de adolescência.
Imagino que até ele tomar a decisão de nos contar (a mim e ao pai), deva ter sofrido bastante, e tido medo de nossa reação. Ele sabe que somos cristãos católicos praticantes, sabe de nossos valores, conhece nossas posições acerca da prática do homossexualismo (não da orientação sexual, pois essa, em si mesma, não é pecado conforme o Magistério da Igreja, que seguimos). Mesmo hoje, somos claros e honestos com ele sobre o que pensamos.
Meu filho sabe que rezo por ele, pela salvação de sua alma, independente de qualquer coisa. Uma mãe nunca desiste de um filho. E Deus também não desiste dos seus filhos, sejam eles como forem. Eu creio que o diálogo de uma alma com o seu criador é única, e não cabe a mim tecer julgamentos sobre quem pode ou não ser salvo. Deus é infinita sabedoria e misericórdia, ele condena o erro mas ama o pecador e não quer vê-lo perder-se. Por isso, continuo com minhas orações. Não rezo para que Deus "conserte" o meu filho, rezo para que ele nunca perca a fé e que sua alma se salve. Não sei como, não sei quando, não sei nada. Mas a fé de uma mãe é poderosa, e Deus é amor. Creio nisso firmemente.
Esse texto está sendo escrito com o conhecimento e a concordância do filhote, pois "pode ajudar outras mães e, quem sabe, também outros filhos". Essa também é a minha intenção. Se você também está lidando com essa nova realidade em sua casa, como filho ou como mãe/pai, e quiser conversar com alguém, pode escrever nos comentários ou em privado, no email mttcamillo@gmail.com, vamos trocar figurinhas, orações, experiências. Eu não sei muito, mas estou querendo aprender e dividir o pouco que já aprendi.
Há quase dezessete anos atrás, eu tive um filho homem. Como toda mãe de menino, vesti meu príncipe de azul, comprei carrinhos, figuras de ação, videogames, bonés, Pokemon Cards... tudo aquilo que meninos gostam. Sonhei e ao mesmo tempo tive medo do dia em que ele me apresentaria a mulher que ia concorrer comigo pelo seu coração, o dia em que eu me tornaria a número 2. Sonhei em vê-lo se formar, médico, engenheiro, advogado, ou seja lá qual fosse a sua vocação.
Preparei-me para enfrentar todas as dificuldades que vêm de ter um filho, preparei-me para vê-lo adoecer algumas vezes, para acompanhar seu desenvolvimento escolar, para discipliná-lo, para os desencontros e conflitos da adolescência. Mas eu confesso que nunca me preparei para ouvir dele o que ouvi: "mãe, eu sou gay". Dito assim, curto, claro, sem rodeios (vê-se bem que ele tem a quem puxar).
Depois de aguardar alguns segundos com a esperança de que ele dissesse: "mentira, mãe, to zuando", o que não aconteceu, e, constatando pelo olhar nervoso dele, aguardando o que eu diria em seguida, que o assunto era, sim, bem sério, achei força para falar: afirmei a ele que nada mudava, que ele continuava a ser o meu filho muito amado. Depois, como toda mãe, quis fazer perguntas: como ele concluiu que era gay, desde quando sabia, se já tinha tido alguma experiência ou relacionamento, etc etc. No fim, ele estava aliviado, e eu fui deixada para lidar com essa nova realidade.
Se a princípio, meu mundo caiu, hoje ele segue em pé, embora numa corda bamba: estou sempre procurando maneiras de demonstrar o grande amor que tenho pelo meu filhote sem, contudo, dar aprovação para o que não posso aprovar.
Passei por um período bem triste, tentando descobrir onde eu teria errado, o que eu teria negligenciado, para que isso acontecesse... tantas perguntas... "onde errei?" "será que foi por eu ter uma personalidade forte?", "será que foi por que...??". Conforme os familiares iam sabendo, alguns também questionaram. Mãe já se culpa por tudo... imagina então como me senti, pensando que meu comportamento, jeito de ser ou atitude pudessem ter influenciado meu filho... hoje parei de ficar procurando "causas". Nem a ciência ainda deu conta de explicar o homossexualismo: alguns estudiosos falam em genética, outros em questões comportamentais... não seria eu a fechar essa questão.
O que penso é que algumas pessoas são assim, e embora eu não entenda o porquê, elas merecem igualmente o meu amor, o meu respeito. Eu posso não concordar com seu estilo de vida - assim como, por ser católica, não acho correto um casal fazer sexo antes do casamento - mas assim como não me meto na vida dos meus conhecidos que escolhem viver maritalmente sem casar, ou viver um "namoro avançado", eu também não me meto na vida dos meus conhecidos gays que têm namorados ou companheiros. Ainda assim, em ambos os casos, mantenho a estima e reconheço as qualidades que eles têm. Obviamente, os meus amigos mais próximos são os que pensam como eu, têm a mesma fé, temos afinidade. Espero deles que mantenham o respeito e carinho que sempre tiveram com o meu filho.
Algumas coisas eu começo a compreender melhor: meu filho é o mesmo rapaz doce, inteligente, questionador e bondoso de sempre - isso não mudou! Ser sincera é o melhor caminho. Ele sabe o que penso, sabe no que acredito, sabe os meus limites. Eu tento sempre manter o canal de comunicação aberto, dialogar, ouvir, mesmo aquilo que é difícil ouvir do seu próprio filho.
Por outro lado, coloco limites, pois tenho filhas pequenas que ainda estão em formação. Limites, na verdade, precisam existir em qualquer casa, independente da orientação sexual dos filhos, não é mesmo? E com ele não será diferente. Até então ele tem respeitado os limites que eu e o pai temos fixado, com umas tentativas aqui e ali de transgressão, típicas de adolescência.
Imagino que até ele tomar a decisão de nos contar (a mim e ao pai), deva ter sofrido bastante, e tido medo de nossa reação. Ele sabe que somos cristãos católicos praticantes, sabe de nossos valores, conhece nossas posições acerca da prática do homossexualismo (não da orientação sexual, pois essa, em si mesma, não é pecado conforme o Magistério da Igreja, que seguimos). Mesmo hoje, somos claros e honestos com ele sobre o que pensamos.
Meu filho sabe que rezo por ele, pela salvação de sua alma, independente de qualquer coisa. Uma mãe nunca desiste de um filho. E Deus também não desiste dos seus filhos, sejam eles como forem. Eu creio que o diálogo de uma alma com o seu criador é única, e não cabe a mim tecer julgamentos sobre quem pode ou não ser salvo. Deus é infinita sabedoria e misericórdia, ele condena o erro mas ama o pecador e não quer vê-lo perder-se. Por isso, continuo com minhas orações. Não rezo para que Deus "conserte" o meu filho, rezo para que ele nunca perca a fé e que sua alma se salve. Não sei como, não sei quando, não sei nada. Mas a fé de uma mãe é poderosa, e Deus é amor. Creio nisso firmemente.
Esse texto está sendo escrito com o conhecimento e a concordância do filhote, pois "pode ajudar outras mães e, quem sabe, também outros filhos". Essa também é a minha intenção. Se você também está lidando com essa nova realidade em sua casa, como filho ou como mãe/pai, e quiser conversar com alguém, pode escrever nos comentários ou em privado, no email mttcamillo@gmail.com, vamos trocar figurinhas, orações, experiências. Eu não sei muito, mas estou querendo aprender e dividir o pouco que já aprendi.