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quarta-feira, 26 de agosto de 2009

O anencéfalo tem direito a vida? - É um filho também?

Texto de Márcia Tominaga
Em outubro de 2002 descobri, com muita alegria, que estava grávida.Este seria o segundo filho, ou filha, que viria para fazer companhia ao irmãozinho, que, nesta época, contava pouco menos que dois anos. Tudo estava indo bem, até que, antes do Natal daquele ano, em um exame de rotina, descobrimos que o nosso bebê não possuía a calota craniana bem formada, ou seja, ele tinha "acrania" e o osso do crânio, não tendo se formado adequadamente, deixou o topo da cabeça "aberto". Fomos informados que o fato de a cabeça estar aberta, faria com que o líquido amniótico atacasse diretamente o cérebro do bebê, desembocando em um quadro chamado "anencefalia", e, dentro deste contexto, a perspectiva de vida, seria: viver até uma hora após o nascimento; se ultrapassada a primeira hora, viver até um dia; se ultrapassado o primeiro dia, viver até uma semana; se ultrapassada a primeira semana, viver até um mês e, com muita sorte, se ultrapassado o primeiro mês, viver até um ano.

Grande foi o nosso espanto! Quando o médico começou a informar qual seria o procedimento legal para a realização do aborto, caso desejássemos, eu o interrompi e fui perguntando: "Doutor, eu corro risco de vida?". E o médico respondeu: "Pelo fato de o bebê ter esta anomalia, não. Algumas situações podem ocorrer, como, por exemplo, o aumento do líquido amniótico, mas isto pode ser contornado com os recursos dos quais dispomos hoje." A minha resposta veio pronta: "Então, Doutor, este bebê vai nascer!".


E assim se seguiu. A gestação transcorreu bem, sem maiores percalços. Eu seguia a rotina diária de qualquer mulher que tem casa, marido, filho e trabalho externo, e, sempre que me perguntavam como ia a gravidez, eu respondia que estava indo bem (sim, dentro de todo o contexto, a gestação estava indo bem), se estranhos me abordavam, questionando se seria menino ou menina, quantos meses, etc... eu sempre respondia com um sorriso, que era um menino, que estava com "x" semanas. Apesar de estar vivendo tempos difíceis, eu me esforçava em tornar a situação um pouco mais leve e evitava causar preocupação desnecessária nas pessoas ao meu redor, especialmente, no meu marido.

Após o diagnóstico, procuramos informações junto a outros médicos; pesquisamos muito na internet sobre o tema; contatamos outros pais que também passaram por esta situação, em busca de informações sobre a anencefalia e sobre uma possível cura. Descobrimos que a Medicina, no estágio evolutivo em que se encontra, nada pode fazer para reverter este diagnóstico. Descobrimos que a mulher em idade fértil deve tomar 5 mg. diárias de Ácido Fólico, o que reduz em mais da metade a chance de se gerar um bebê com má-formação do tubo neural (a anencefalia é apenas uma de outras más formações possíveis, como, por exemplo, a espinha bífida). Descobrimos que muitas mulheres que passam por igual situação não têm acesso a informações corretas e acabam por realizar o aborto. Eu mesma fiquei espantada por nunca ter visto uma campanha oficial sequer, voltada para a orientação das mulheres quanto à importância preventiva do ácido fólico em uma futura gestação!

Felipe nasceu de parto normal, no ano de 2003 e viveu vinte minutos. A experiência de termos tido este filho muito amado enriqueceu nossas vidas, fortaleceu nosso senso de respeito ao próximo e da importância da família, e, hoje, somos confortados pelo sentimento de termos feito o que era correto. Quanto vale a vida de um filho? Tudo aquilo que um pai e uma mãe puderem fazer para preservá-la.

14 comentários:

Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz disse...

Parabéns ao Paulo e à Márcia por esse belíssimo testemunho de amor a um filho deficiente!
Precisamos de pais assim, já que estamos às vésperas da votação da ADPF 54 (aborto de anencéfalos)
O amigo e admirador.

Abgail disse...

Parabéns a autora que soube ser mãe de verdade. Quem dera todas as mulheres tivessem essa coragem.

Monica Torres disse...

Maaaraaaavilhoosooo!!! Que sua mensagem chegue às mães que hoje passam por isso. Tenho certeza, como mãe também de um bebê que nasceu com anencefalia (Giovanna), que mãe que é mãe não pensa em abortar se não for influenciada por outros, principalmente pelo médico. Que Deus abençoe sua família. Beijos!!!
Quem quiser conhecer um pouco mais sobre o tema, vejam em:
www.anencefalia.com.br

Liana Clara disse...

O testemunho da Márcia foi realmente maravilhoso, só temos que agradecer a ela esta oportunidade de nos proporcionar um relato sobre o assunto anencefalia de forma tão clara e emocionante. Obrigada Márcia e que Deus a abençoe nesta sua nova gravidez. Beijos

Padre disse...

Que interessante! De um fato tão doloroso se construir uma história de alguem que teve uma chance de fazer parte da história desta família (por nove meses e 20') e da nossa, nem que seja por 20'; é sempre será o Felipe. Parabens.

Anônimo disse...

Estou vivendo esse momento em minha vida. Meu bebe tem acrania estou com 15 semanas de gestação. Não penso em abortar,afinal,é meu filho. Mas confesso que estou vivendo o pior momento de minha vida. É muito ruim ter um bebe em meu ventre e não poder ter planos para o futuro com ele. Não montar seu enxovalzinho,pois,nem vai ter tempo de usar nada. Peço a todos que lerem esse depoimento,que orem por mim e minha família,pois,nossa dor esta muito grande.

Liana Clara disse...

Anonima, espero que você tenha bastante coragem e leve sua gestação até o final. O importante é fazer o melhor possível para este filho que vai nascer. Ele terá todo o seu carinho enquanto puder. Lembre-se disso. Você fazendo assim terá sempre a certeza de que fez o melhor por esta criança. Que Deus te proteja em todos os teus momentos difíceis. Um abraço

Anônimo disse...

Estou passando pela mesma situação. Me bebê tem acrania e estou com 26 semanas de gestação. Ter optado em prosseguir com a gravidez foi a melhor decisão que já tomei em minha vida. Amo meu bebê, independente de como ele seja e tenho certeza que um dia, quando Jesus voltar, Ele me entregará o João em meus braços.
um grande bjo para vcs!

luciliadionizio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
luciliadionizio disse...

Estou passando pela mesma situação,meu bebe tem acrania e estou com 15 semanas de gestação, independente do que aconteça vou levar minha gravidez ate onde Deus quiser, não tenho coragem de tirar, penso em varias possibilidades, mas estou a espera, sei que existe uma cirurgia que pode ser feita, mas os medicos não dizem isso, tem um caso de amanda vitotia de cristo, que fez a cirurgia e ate hoje esta viva, tenho esperança que pode ser assim tbm com o meu bebe.Um grande abraços para todos.

Liana Clara disse...

Lucília tenho certeza de que a sua decisão de ter seu filho a termo será a mais acertada tanto pra você quanto para o bebê, todos tem o direito a vida, seja o tempo que Deus nos permitir ter.
Mas com certeza você poderá ter paz no coração por ter posto todos os meios pela vida de seu filho.
Visite-nos sempre que quiser.
Abraços e conte com nossa amizade. Liana

Márcia Tominaga disse...

Cara Lucilia, estes são momentos difíceis, mas, certamente, ricos em crescimento. Quando tudo passar, você seguirá adiante com dignidade, na certeza de que cuidou da vida que Deus lhe confiou da melhor maneira possível.Coragem! Deus a ama com predileção. Abraço, Márcia Tominaga.

Márcia Tominaga disse...

Cara Lucilia, estes são momentos difíceis, mas, certamente, ricos em crescimento. Quando tudo passar, você seguirá adiante com dignidade, na certeza de que cuidou da vida que Deus lhe confiou da melhor maneira possível.Coragem! Deus a ama com predileção. Abraço, Márcia Tominaga.

Márcia Tominaga disse...

Cara Lucília, estes são momentos difíceis, mas, certamente, ricos em crescimento. Quando tudo passar, você seguirá adiante com dignidade, sabendo que cuidou da melhor maneira possível desta Vida que Deus lhe confia. Coragem! Deus lhe tem especial predileção. Abraço, Márcia Tominaga.

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